O Banco do Japão (BoJ) deu sua sinalização mais clara até agora de que a era de combate à deflação pode ter chegado ao fim. Em comunicado recente, a autoridade monetária alertou pela primeira vez que a inflação subjacente pode ultrapassar sua meta de 2%, indicando que o foco se deslocou para os riscos de alta dos preços. A mudança de tom abre caminho para uma possível elevação dos juros já em setembro.

O movimento ocorre em um cenário de forte pressão sobre o iene, cuja desvalorização encarece as importações e corrói o poder de compra das famílias. Segundo reportagem do Money Times, a nova postura do BoJ coincide com suspeitas de intervenção do governo no mercado de câmbio para sustentar a moeda. A leitura é que as intervenções são paliativas; a solução estrutural passa por uma política de juros que reduza o diferencial com outras economias, e o banco central parece agora admitir essa realidade.

A reviravolta da inflação

Por décadas, o Japão foi uma anomalia econômica. Enquanto o mundo se preocupava com a inflação, o país travava uma batalha contra a deflação, utilizando um arsenal de políticas monetárias não convencionais, incluindo taxas de juros zero ou negativas. O objetivo era estimular a economia e fazer os preços subirem. Agora, o cenário se inverteu. O presidente do BoJ, Kazuo Ueda, afirmou que os riscos de a inflação superar a meta são “grandes demais para serem ignorados”.

A urgência da situação ficou evidente na própria reunião do comitê de política monetária. Embora a taxa de curto prazo tenha sido mantida em 1%, a decisão não foi unânime. Um dos membros da diretoria, Hajime Takata, votou por uma alta imediata para 1,25%, um sinal de dissidência que reforça a percepção de que a inação tem um custo crescente. O relatório trimestral do banco agora cita explicitamente a demanda por IA e as flutuações cambiais como riscos inflacionários, uma linguagem notavelmente mais forte que a dos documentos anteriores.

O dilema do iene

A questão central para Tóquio é o equilíbrio delicado entre crescimento e estabilidade de preços, com o câmbio no meio da equação. Um iene fraco beneficia os grandes exportadores, pilar da economia japonesa, mas impõe um custo pesado a uma nação dependente da importação de energia e alimentos. A pressão política e social para conter a alta do custo de vida é imensa.

Adiar a alta de juros poderia aprofundar a desvalorização da moeda e consolidar a inflação acima da meta, minando a credibilidade do banco central. Por outro lado, um aperto monetário rápido demais arrisca sufocar uma recuperação econômica ainda frágil. A fala de Ueda sugere que, entre os dois riscos, o da inflação descontrolada passou a ser o mais temido. A próxima reunião, em setembro, torna-se um ponto de inflexão para a terceira maior economia do mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times