Faleceu aos 74 anos Raymundo Gómez Flores, um dos industriais mais emblemáticos do México e arquiteto de um conglomerado que se estende do transporte de cargas à farinha de milho. Sua morte encerra a saga de um empreendedor que começou em negócios familiares modestos e soube, como poucos, navegar as transformações econômicas de seu país.

A trajetória de Gómez Flores é uma aula sobre a construção de capital em economias em desenvolvimento. Sua história não é apenas sobre o sucesso de empresas como a fabricante de caminhões DINA ou a gigante de alimentos Minsa, mas sobre a simbiose entre visão empresarial e as oportunidades abertas pela reforma do Estado, um roteiro com paralelos nítidos no Brasil.

Da base ao topo

A jornada de Gómez Flores começou longe dos grandes centros de decisão. Nos anos 60, trabalhou como estoquista e caixa em um hotel da família em Guadalajara, além de gerir uma lavanderia industrial. O primeiro grande salto veio em 1981, com a fundação do Grupo Inmobiliario G (GIG), que se tornou um player relevante na construção de moradias populares e parques industriais, fincando a primeira estaca de seu futuro império.

O ponto de inflexão, contudo, foi a onda de privatizações promovida pelo governo de Carlos Salinas de Gortari. Em 1989, seu consórcio arrematou a estatal Diesel Nacional (DINA), um ativo estratégico na indústria de ônibus e caminhões. Quatro anos depois, em 1993, repetiu a dose ao adquirir os ativos que deram origem ao Grupo Minsa, hoje um gigante no mercado de farinha de milho. Gómez Flores não estava apenas comprando empresas; estava adquirindo pedaços da infraestrutura produtiva do México.

Um império de muitos braços

O apetite do empresário não se limitou às joias da coroa estatal. Ele consolidou sua presença no setor de transportes ao se tornar proprietário do consórcio de ônibus Estrella Blanca e investiu no setor financeiro, sendo acionista majoritário do Banca Cremi e fundador do Banco Industrial de Jalisco. Essa diversificação revela uma estratégia clássica de criar um ecossistema de negócios interligados, do financiamento à logística.

A influência de seu grupo, no entanto, transcendeu a economia. Gómez Flores teve um mandato como senador, e a passagem de bastão para a nova geração solidifica essa ponte com o poder. Sua filha, Altagracia Gómez Sierra, não é apenas herdeira de um império, mas uma figura central no novo governo mexicano, atuando como principal conselheira empresarial da presidente Claudia Sheinbaum. O legado econômico se converteu em capital político.

A saga de Raymundo Gómez Flores é, em essência, a crônica da formação de uma dinastia empresarial moderna na América Latina. Sua história ilustra como fortunas foram construídas na intersecção entre o empreendedorismo pragmático e as grandes marés da política econômica, um modelo que deixa um legado duradouro e complexo, ecoando de forma familiar para quem acompanha a história empresarial brasileira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX