A cota de exportação de carne bovina do Brasil para a China, referente ao ano de 2027, corre o risco de se esgotar ainda no primeiro quadrimestre. A projeção é de Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que estima um preenchimento do volume total de 1,128 milhão de toneladas até março ou abril daquele ano.

A antecipação ocorreria porque os embarques para o cumprimento da cota, que se beneficia de tarifas reduzidas, devem começar já em novembro de 2026. A dinâmica, que à primeira vista soa como um sinal de forte demanda, expõe a complexa dependência do setor em relação ao seu maior comprador e levanta um debate sobre a gestão estratégica das exportações.

O dilema da porteira chinesa

A velocidade com que o volume pode ser atingido preocupa a indústria. Segundo a reportagem do Money Times, o próprio presidente da Abiec defendeu que os embarques possam ser "dosados", possivelmente por meio de uma medida governamental, para evitar que a cota se esgote de forma abrupta. A sugestão revela o temor de um vácuo comercial nos oito meses seguintes do ano, o que traria volatilidade para frigoríficos e pecuaristas que se planejam com base no fluxo para a Ásia.

O cenário é agravado por uma camada de incerteza sobre o real "apetite" chinês. Perosa ponderou que a China está com estoques elevados de proteínas, o que pode moderar a demanda quando as vendas forem retomadas. Em outras palavras, a corrida para exportar pode encontrar um mercado menos aquecido, pressionando as margens. O aumento da cota para 2027, de apenas 20 mil toneladas em relação ao ano anterior, também indica que o crescimento não está no volume, mas na gestão do fluxo.

O episódio ilustra um novo estágio de maturidade para o agronegócio brasileiro. O desafio não é mais apenas abrir mercados, mas aprender a gerenciá-los com sofisticação, evitando que a força da demanda se transforme em uma armadilha de previsibilidade. A discussão sobre como dosar as vendas para a China é um sintoma de uma questão maior: como o Brasil pode se posicionar para além de um fornecedor de commodities, mitigando os riscos de ser um cativo de seu principal cliente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times