Uma visita a amigos na casa dos vinte anos revelou um detalhe curioso: em vez de plantas tradicionais, uma estante exibia orgulhosamente uma planta Lego. Não se tratava de um presente para uma criança, mas de uma aquisição para o próprio espaço, um reflexo de uma tendência crescente que está remodelando a indústria de brinquedos. O fenômeno, batizado de 'kidult' — a união de 'kids' e 'adults' —, sinaliza uma mudança sísmica no mercado, onde consumidores adultos, impulsionados por nostalgia, colecionismo e um desejo por experiências de lazer, estão se tornando os principais compradores.

A Nostalgia como Motor Econômico

O mercado de brinquedos, historicamente voltado para pais e avós comprando para os pequenos, agora vê os adultos como protagonistas. Um relatório da consultoria Circana aponta que, nos Estados Unidos, mais da metade (55%) das vendas de brinquedos ocorrem em lares sem crianças. O crescimento de 16% nas compras por adultos no primeiro semestre de 2026 superou o de lares com crianças, evidenciando a força desse novo público. Essa não é apenas uma questão de demografia ou queda na natalidade; a Circana detalha que as vendas para adultos acima de 18 anos cresceram 25%, tornando-se um motor crucial para o setor. Essa ascensão, embora menos acentuada que a dos adolescentes (que tiveram um salto de 33%), é fundamental, com ambos os grupos respondendo por quase 60% dos ganhos incrementais em dólares.

Um Mercado Global em Expansão

A tendência 'kidult' não se limita aos EUA. Na Espanha, por exemplo, esse mercado já movimenta cerca de 1,2 bilhão de euros anuais, com projeções de crescimento para 1,5 bilhão até 2030. Globalmente, os 'kidults' já representam cerca de 90 bilhões de dólares em gastos, com expectativas de alcançar 110 bilhões até o final da década. Essa expansão é alimentada por uma gama diversificada de motivações: colecionismo de peças raras, apego a universos como Star Wars ou Marvel, e a simples satisfação de reviver memórias de infância. O ato de um adulto comprar brinquedos deixou de ser um tabu, transformando-se em um passatempo legítimo, uma forma de expressão de identidade e até mesmo uma atividade social.

Redefinindo o Jogo: De Brinquedo a Experiência

Os brinquedos para adultos transcendem a mera brincadeira infantil. Eles se tornam elementos de decoração, peças de colecionador e símbolos de pertencimento a uma comunidade de fãs. A consultora Kristen McLean, da Circana, observa que esses produtos funcionam cada vez mais como "passatempos, ecossistemas de fãs e experiências sociais, em vez de produtos infantis tradicionais". Essa percepção amplia o espectro de consumidores e abre novas avenidas para fabricantes e varejistas, que agora precisam dialogar com colecionadores, entusiastas e aqueles que buscam um refúgio nostálgico em meio às complexidades da vida adulta. A indústria, antes focada na funcionalidade para crianças, agora explora a carga emocional e o valor cultural que seus produtos carregam para um público mais maduro.

O que começou como uma anedota — uma planta Lego decorando a sala de estar de um jovem casal — revela-se um sintoma de uma transformação mais profunda. A linha entre o infantil e o adulto se dissolve, e o brinquedo, antes confinado ao quarto das crianças, encontra um novo lar e um novo propósito nos espaços de vida dos adultos. Resta saber como essa dinâmica continuará a moldar não apenas o mercado de brinquedos, mas também as próprias noções de lazer e consumo na vida adulta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka