As ondas de calor que se tornaram rotina no verão europeu deixaram de ser uma preocupação exclusiva da saúde pública para se converterem em um risco econômico tangível. Com o continente aquecendo ao dobro da velocidade média global desde os anos 1990 — atrás apenas do Ártico —, as empresas agora encaram o desafio de proteger seus funcionários e sua produtividade do estresse térmico. O que antes era um cenário distante, confinado a modelos científicos, hoje se materializa em balanços e planos operacionais.

Segundo uma reportagem da revista Fortune, a questão vai muito além do desconforto. Trata-se de um passivo crescente que ameaça corroer a produção industrial, a logística e a segurança no trabalho. A análise aqui é que o clima se tornou uma variável inescapável na gestão de negócios na Europa, forçando uma adaptação que o continente, especialmente em suas regiões mais ao norte, estava pouco preparado para fazer. A resposta corporativa a esse novo cenário definirá não apenas a resiliência das empresas, mas também a sustentabilidade de suas operações em um planeta mais quente.

O custo da inércia

O calor excessivo impõe um custo direto e mensurável. Um relatório da seguradora Allianz, intitulado “Too Hot to Grow” (Quente Demais para Crescer, em tradução livre), projeta que as perdas relacionadas ao calor entre hoje e 2030 podem chegar a US$ 240 bilhões na França, US$ 147 bilhões na Itália e US$ 131 bilhões na Alemanha. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a produtividade de um trabalhador cai de 2% a 3% para cada grau Celsius acima de 20°C. O impacto, portanto, não se restringe a picos de temperatura; é um dreno contínuo na eficiência.

O problema é crônico, não apenas agudo. Manal Azzi, especialista da Organização Internacional do Trabalho (OIT), alerta que 90% da exposição ao calor excessivo ocorre fora dos períodos oficialmente classificados como ondas de calor. Isso significa que o estresse térmico é uma condição de trabalho diária para muitos, não um evento raro. Pior: a Allianz adverte que a maior parte desses danos — mortalidade excessiva, horas de trabalho perdidas, pressão sobre sistemas de saúde — não é coberta por apólices de seguro tradicionais, que não foram desenhadas para lidar com esse tipo de risco sistêmico e gradual.

Da reação à adaptação estrutural

Em resposta, as empresas europeias começam a se mobilizar. Os setores com maior exposição, como agricultura, construção civil e logística, lideram o movimento. A gigante de logística DHL, por exemplo, distribui aos seus entregadores na Alemanha uma “caixa de resfriamento” com toalhas reutilizáveis e protetores de pulso que se ativam com água. A Schneider Electric, por sua vez, instalou áreas de descanso climatizadas em suas fábricas e utiliza seu próprio software, o EcoStruxure, para gerenciar a ventilação e a climatização de forma energeticamente eficiente.

A adaptação, contudo, não é trivial nem uniforme. Para companhias como a IBM, com força de trabalho majoritariamente em escritórios modernos, o ar-condicionado e o design arquitetônico resolvem grande parte do problema. A complexidade aumenta em plantas industriais e para trabalhadores externos. Além disso, a solução mais óbvia — o ar-condicionado — traz seus próprios dilemas: o alto consumo de energia e o fato de que, em países com matriz energética dependente de combustíveis fósseis como Itália e Grécia, seu uso pode acabar exacerbando o aquecimento global. A busca, portanto, é por saídas mais inteligentes e sustentáveis.

O debate avança para soluções baseadas na natureza, como telhados e paredes verdes, que funcionam como um “ar-condicionado natural”, sem consumir eletricidade e ainda purificando o ar. O varejista Ikea já testa a instalação de “pocket parks” e jardins de chuva em suas lojas. A lição que emerge de climas tradicionalmente mais quentes é que a adaptação precisa ser sistêmica, considerando o bem-estar do trabalhador também fora do expediente. Como resume Ying McGuire, CEO da aliança de bens de consumo Cascale: “Não estamos mais falando de um risco futuro. É um estressor diário e ativo do qual precisamos sair através da engenharia”. Para as empresas europeias, a desculpa de que as temperaturas são atipicamente altas já não se sustenta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune