Jon Gray, o presidente da Blackstone, tem um conselho para a nova safra de analistas da Geração Z que chega à gestora de US$ 1 trilhão: pensem como fundadores de startup. Em um discurso recente, Gray defendeu que a mentalidade empreendedora é o segredo para o sucesso e o motor que permitiu à própria Blackstone manter-se ágil apesar de sua escala colossal.

O recado, no entanto, expõe uma tensão fundamental no mercado de trabalho atual. Enquanto líderes como Gray e Jeff Bezos, da Amazon, defendem a carreira corporativa como um campo de treinamento para o empreendedorismo, um número crescente de jovens talentos está pulando essa etapa. A atratividade da escada corporativa parece diminuir na mesma medida em que a possibilidade de criar um negócio do zero se torna mais acessível.

O funil corporativo

A fala de Gray não é apenas um conselho de carreira, mas um reflexo das pressões que as grandes corporações enfrentam. Manter uma cultura de inovação e agilidade, o “coração pulsante” que ele menciona, é um desafio constante. Ao mesmo tempo, a porta de entrada para essas empresas está cada vez mais estreita. A taxa de aceitação para analistas na Blackstone, por exemplo, caiu para menos de 0,1%.

Soma-se a isso o impacto da inteligência artificial. Uma pesquisa do Graduate Management Admission Council aponta que um terço dos empregadores já substitui funções de nível júnior por IA, especialmente em tecnologia. O caminho tradicional, que antes era o padrão para jovens ambiciosos, está se tornando mais competitivo e, para alguns, menos relevante.

A via do fundador

Se por um lado a IA encolhe vagas de entrada, por outro ela democratiza a criação de negócios. Ferramentas de IA generativa podem criar planos de negócio, websites e protótipos em minutos, reduzindo drasticamente o custo e a barreira técnica para empreender. Os números confirmam a tendência: um relatório da Intuit aponta que 43% da Geração Z nos EUA considera abrir uma empresa.

Em Harvard Business School, o percentual de formandos que planejam fundar uma empresa logo após a graduação mais do que dobrou de 2021 para 2025, saltando de 8% para 17%. Para uma parcela crescente dos melhores talentos, o apelo de construir algo próprio superou o prestígio de um emprego em finanças ou consultoria.

A questão que se coloca para gigantes como a Blackstone não é se a próxima geração será empreendedora, mas onde ela escolherá sê-lo: dentro dos muros de Wall Street ou à frente de suas próprias startups.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune