A imagem de Trisha Daab, 47, após duas décadas imersa na voragem corporativa, era a de quem havia "sprintado uma maratona por tempo demais". A ex-executiva, que agora se dedica a escrever sobre viagens e lecionar, descreve um cansaço profundo que só se manifestou quando finalmente parou. "Nunca soube o quão cansada eu estava até parar de trabalhar", confessou ao Business Insider. Um ano sabático, repleto de dança, voluntariado e viagens, serviu como um espelho para suas prioridades em mudança, revelando uma insatisfação com a cultura de "sempre mais": listas intermináveis, e-mails urgentes e a busca incessante pela próxima promoção. A narrativa de Daab ecoa um movimento crescente entre mulheres millennials, que, ao entrarem nas décadas de 30 e 40, demonstram um ceticismo em relação ao modelo corporativo tradicional. Em vez de escalar hierarquias, muitas estão optando por se tornarem donas de seus próprios negócios, criadoras de conteúdo ou dedicadas à maternidade, priorizando agendas mais flexíveis e um senso renovado de propósito.

O Legado da "Girlboss" e a Busca por Autenticidade

O termo "girlboss", popularizado nos anos 2010, evocava uma imagem de mulheres ambiciosas, capazes de "ter tudo" – carreira de sucesso, vida pessoal plena e influência inabalável. Era um mantra de ascensão, encapsulado na frase "lean in" (arriscar, em tradução livre), de Sheryl Sandberg. No entanto, a fachada de sucesso ininterrupto começou a ruir sob o peso de alegações de ambientes de trabalho tóxicos e a percepção de que a promessa de "ter tudo" era, na verdade, um convite à auto-anulação. A pandemia de 2020, com a súbita adoção do trabalho remoto, ofereceu a muitas mulheres um vislumbre de um ritmo de vida mais sustentável. A ausência da correria diária, a possibilidade de estar presente para os filhos ou simplesmente o alívio de não estar "sempre ligada" alteraram a percepção do que é essencial. Conforme as empresas começam a exigir o retorno aos escritórios, essa mudança se intensifica, com muitas mulheres resistindo à ideia de voltar a um modelo que sentem não as valorizar adequadamente.

A Realidade da Sobrecarga e a Desilusão Corporativa

Sheryl Sandberg, ex-COO da Meta, sugere que essa "fuga" corporativa não é por falta de vontade, mas sim de reconhecimento e apoio. "Não são as mulheres que dizem 'não quero fazer isso'", observou, "são as mulheres que dizem 'não quero fazer isso porque não sou desejada, não tenho as mesmas oportunidades e o mesmo apoio, e enfrento um fardo injusto em casa'". O relatório "Women in the Workplace 2025" da organização Lean In, fundado por Sandberg, corrobora essa visão: mulheres millennials, em particular, expressaram menor desejo por promoções em comparação com homens, citando "obrigações pessoais" como principal obstáculo. A psicoterapeuta Annie Wright, que atende líderes do Vale do Silício, percebe em suas pacientes millennials uma "escolha mais centrada na pessoa do que necessariamente orientada apenas para a carreira". A ambição, para elas, não mais se confunde com "auto-apagamento". A pressão combinada de cuidar de filhos pequenos, muitas vezes em paralelo com pais idosos, e os custos exorbitantes de creches e cuidados com idosos, criam um cenário onde a flexibilidade se torna não um luxo, mas uma necessidade.

Novos Horizontes: Empreendedorismo e a Economia dos Criadores

Para algumas, a saída do mundo corporativo é impulsionada por um desejo de explorar novas fronteiras. Heigi Jeong, 30, deixou um cargo bem remunerado em design de produto, que descreve como "sustentável" e um "sonho de imigrante", para se dedicar à escrita de um livro e à criação de conteúdo. A atração pela autonomia de ser sua própria chefe e a oportunidade de "escolher totalmente o papel a desempenhar" superaram a segurança do emprego tradicional. Essa tendência é reforçada pelo crescimento do empreendedorismo feminino e da economia dos criadores. Um estudo do Censo de 2024 indicou um aumento no número de mulheres donas de negócios, especialmente entre as mais jovens. A ascensão de plataformas digitais abriu caminhos para que consultoras e profissionais troquem a "coroa da girlboss" por uma gestão de carreira mais autônoma, trocando a cultura do "grind" pela "soft life" – um estilo de vida focado em bem-estar, viagens e marcas lucrativas. A prioridade se deslocou de reuniões intermináveis para a hidratação, o sono e o autocuidado, com a promoção ou o sucesso agora medidos em "disponibilidade, presença e liberdade".

O Dilema da Liderança Feminina

A decisão de "inclinar-se para fora" (lean out) em massa, porém, levanta uma questão crucial: quem permanecerá nas posições de liderança corporativa para advogar por políticas mais flexíveis e equitativas? Sandberg, que também deixou seu cargo de COO para se dedicar à filantropia e investimentos, apoia a diversidade de escolhas profissionais, mas alerta para a perda para a economia e para a sociedade quando mulheres ambiciosas se afastam por falta de valorização. "É uma perda para a nossa economia. É uma perda para as nossas empresas. É uma perda para os nossos filhos", lamenta. A esperança reside na crença de que, mesmo ao buscar caminhos alternativos, a ambição feminina por um ambiente de trabalho que ofereça oportunidades iguais e suporte genuíno não diminuiu. A questão que permanece é se as empresas conseguirão adaptar-se a tempo de atrair e reter esses talentos, garantindo que o futuro do trabalho seja verdadeiramente inclusivo e propício ao florescimento de todas as formas de ambição.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider