Mais de uma década depois de conclamar uma geração de mulheres a “se inclinar” (o “lean in” do título de seu livro) para conquistar espaço no mundo corporativo, Sheryl Sandberg oferece um novo diagnóstico para a persistente escassez de liderança feminina. A ambição, diz ela, continua intacta. O que falha é o sistema, que empurra as mulheres para fora.

Em uma entrevista recente, a ex-COO da Meta e fundadora da organização Lean In aponta para dados de um novo relatório feito em parceria com a McKinsey. A pesquisa mostra que, embora a motivação de carreira seja praticamente idêntica entre homens e mulheres, elas estão menos interessadas em promoções. A leitura de Sandberg é que essa hesitação não nasce de uma falta de desejo, mas de uma percepção de que o jogo é desigual. O problema, portanto, não estaria na mulher, mas na empresa.

Do indivíduo à estrutura

A tese original de “Lean In”, publicado em 2013, foi um divisor de águas. O livro se tornou um manual para a mulher ambiciosa, focando em ações individuais: sentar-se à mesa, negociar com mais firmeza, não recuar antes da hora. Embora Sandberg sempre tenha refutado a ideia de que pregava a possibilidade de “ter tudo”, a mensagem foi frequentemente interpretada como um chamado à responsabilidade individual, colocando o ônus da ascensão sobre os ombros da mulher.

O argumento atual representa uma evolução significativa. A análise de Sandberg agora se volta para as falhas estruturais que tornam o “lean in” exaustivo ou mesmo inócuo. O relatório de 2025 da sua organização aponta que 25% das mulheres que não desejam uma promoção citam “obrigações pessoais”, contra apenas 15% dos homens. Para Sandberg, isso não é uma escolha puramente pessoal, mas uma consequência direta de um ambiente que oferece menos apoio, menos mentoria e perpetua uma carga desproporcional de trabalho doméstico e de cuidado.

O cálculo do sistema

O custo dessa falha sistêmica, argumenta Sandberg, é das próprias companhias. “Sabemos que quando as empresas têm mais mulheres na liderança, o desempenho é melhor”, afirmou em entrevista ao Business Insider. Mais do que isso, a presença feminina em posições de poder tende a gerar políticas mais humanas e que beneficiam a todos, como melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Os exemplos que ela cita de sua própria carreira são ilustrativos. Foi por estar grávida e ter dificuldades para encontrar uma vaga no estacionamento do Google que ela sugeriu a criação de vagas para gestantes, uma política que foi implementada. Na Meta, a discussão sobre a cobertura de congelamento de óvulos para uma funcionária com câncer evoluiu para uma política ampla para todas. A lógica é clara: certas necessidades só se tornam visíveis para a gestão quando quem as vivencia está na sala de decisão. A ausência de mulheres no topo, portanto, não é apenas um problema de representatividade, mas um déficit de perspectiva que afeta a própria operação e cultura da empresa.

A discussão de Sandberg, portanto, amadureceu. Ela não renega a importância da ambição individual, mas a contextualiza dentro de um sistema que pode tanto nutri-la quanto sufocá-la. A questão que paira no ar é se, uma década depois do primeiro chamado, as corporações estão mais dispostas a ouvir. A nova mensagem é menos sobre o que as mulheres devem fazer por si mesmas e mais sobre o que as empresas devem fazer para se tornarem ambientes onde o talento feminino possa, de fato, prosperar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider