Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo americano ergueu um sistema nacional de creches para apoiar as milhões de mulheres que ingressavam na força de trabalho. Assim que os homens retornaram do front, os centros foram desmantelados. O padrão se repetiu na pandemia de covid-19: a flexibilidade e o financiamento bilionário para o cuidado infantil emergiram e, em seguida, desapareceram.
Para Reshma Saujani, fundadora da Girls Who Code e hoje CEO da Moms First, uma organização que defende licença parental remunerada e creches acessíveis, o diagnóstico é claro. A impossibilidade de ser mãe e profissional nos Estados Unidos, segundo ela, é resultado de “falhas políticas intencionais”. Durante um painel no Innovation Festival da Fast Company, Saujani e outras líderes argumentaram que o conhecimento para resolver o problema existe. O que falta é vontade.
A agilidade seletiva do capital
A mesma agilidade que as empresas demonstram para adotar novas tecnologias como inteligência artificial ou para garantir capital não se aplica ao seu capital humano. A crítica é de Alison Moore, CEO da Chief, uma rede privada para mulheres em posições de liderança. Para ela, a mentalidade de urgência e inovação precisa ser aplicada ao bem-estar e à retenção de talentos, especialmente mães, mas as mudanças vistas até agora são insuficientes para reverter um declínio acentuado na participação de mulheres com filhos pequenos na força de trabalho.
O problema se aprofunda no próprio ecossistema de cuidado. Profissionais como doulas e cuidadoras, que preenchem as lacunas deixadas pelo sistema, são sub-remuneradas e carecem de recursos, como destacou Latham Thomas, fundadora da plataforma de formação de doulas Mama Glow. A base que deveria sustentar as famílias é, ela mesma, precária. Isso significa que mesmo quem pode pagar para preencher as lacunas do Estado e das empresas encontra um sistema fragilizado.
A guerra cultural como distração
A solução é conhecida, testada e popular. “A questão que você precisa se perguntar é: por que não o fazemos?”, provocou Saujani durante o debate. A resposta, sugere ela, está menos na logística e mais em uma “guerra cultural” fabricada, que opõe falsamente a mulher de carreira à dona de casa tradicional.
Enquanto essa divisão artificial for alimentada, as falhas estruturais permanecem intactas. A discussão se desvia do essencial: a criação de políticas e ambientes corporativos que não forcem uma escolha entre maternidade e carreira. O debate deixa no ar uma pergunta incômoda sobre quais interesses são servidos pela manutenção desse status quo disfuncional, que continua a penalizar sistematicamente as mães.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





