A Ametic, principal associação da indústria digital espanhola, defende que o governo assuma um papel de “cliente estratégico” para fomentar a inovação no país. A proposta, apresentada por seu presidente, Francisco Hortigüela, durante o Encontro da Economia Digital e das Telecomunicações em Santander, não é um mero pedido por mais contratos, mas um chamado para que o poder de compra estatal seja usado como política industrial.
O diagnóstico é direto: Espanha e Europa perderam competitividade nas últimas décadas, e a digitalização é a ferramenta chave para reverter esse quadro. A leitura aqui é que a associação enxerga o Estado não apenas como regulador, mas como um agente indutor de demanda qualificada, capaz de forçar o avanço tecnológico do setor privado e, por consequência, preservar o estado de bem-estar social.
Autonomia Estratégica via Compras
A tese da Ametic é que, ao se tornar um comprador sofisticado e exigente, o poder público pode impulsionar o desenvolvimento de tecnologias críticas como inteligência artificial, nuvem, cibersegurança e semicondutores. O objetivo é avançar para uma “autonomia estratégica aberta”, alinhada às prioridades da União Europeia, usando a demanda interna para fortalecer a indústria local sem, contudo, fechar o mercado.
Este movimento reflete uma mudança de tom no continente, que parece finalmente admitir que a competitividade é crucial. A proposta de Hortigüela é que a legislação acompanhe e apoie ativamente a inovação, transformando o ato de comprar em uma alavanca para o desenvolvimento competitivo.
Do Discurso à Execução
O plano, no entanto, vai além do governo. Hortigüela também destacou a necessidade de reforçar a colaboração entre empresas e instituições de ensino, além de criar mecanismos para que grandes companhias “tracionem” as de médio porte. O recado é que o investimento público e privado precisa ser coordenado para reduzir a defasagem tecnológica em relação às potências globais.
O apelo espanhol soa familiar no Brasil, onde o debate sobre o poder de compra do Estado e a criação de “campeãs nacionais” é recorrente. A dificuldade, tanto lá quanto aqui, reside em transformar a intenção estratégica em execução eficiente, garantindo que os contratos públicos de fato gerem inovação de ponta, e não apenas uma reserva de mercado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





