O governo da Espanha está colocando seu capital para trabalhar na corrida pela inteligência artificial. O Ministério para a Transformação Digital anunciou a destinação de €180 milhões para acelerar a adoção de IA no tecido empresarial e no sistema de saúde do país. O montante financiará 372 projetos selecionados, em uma demonstração clara de intervenção estatal para impulsionar a competitividade.

O anúncio, feito pelo ministro Óscar López, não é um fato isolado, mas um capítulo central da Estratégia Nacional de IA espanhola, lançada em 2020 e reforçada com mais de €1,5 bilhão em financiamento. A leitura aqui é que a Espanha aposta em um modelo de fomento direto para garantir que sua economia não perca tração na nova onda tecnológica, oferecendo um caso de estudo relevante para o Brasil e outras nações que buscam se posicionar no cenário global.

O Estado como plataforma

A alocação dos recursos revela a granularidade da estratégia. Do total, €130 milhões vão para o programa RedIA, focado em desenvolvimento tecnológico e na incorporação de IA nos processos produtivos. Outros €50 milhões são direcionados ao RedIA Salud, para impulsionar a inovação no setor de saúde, da pesquisa clínica ao diagnóstico.

A política tem um alvo claro: a capilaridade. Segundo a reportagem da Forbes España, 70% dos 300 projetos empresariais selecionados são de pequenas e médias empresas (PMEs), que receberão ajudas entre €400 mil e €5 milhões. A mensagem é que a produtividade não avança apenas com a criação de uma tecnologia, mas com sua democratização. Nas palavras do ministro, “amanhã ninguém poderá competir sem IA”. O movimento sugere que, para o governo espanhol, deixar a adoção de uma tecnologia tão fundamental ao sabor exclusivo do mercado seria um risco estratégico.

Soberania e regulação

O plano espanhol transcende o mero subsídio. Ele é parte de uma visão que combina fomento com governança. A Espanha foi o primeiro país europeu a criar uma Agência de Supervisão de IA (Aesia), sinalizando uma preocupação em construir um ecossistema de “IA humanista”, que equilibre competitividade com direitos dos cidadãos. O país já figura como o quinto mercado europeu em investimento privado em startups de IA e o sexto no mundo em adoção de IA generativa, segundo dados citados pelo ministro.

Outra frente de atuação é a infraestrutura. O governo está desenvolvendo uma regulação para centros de dados, focada em sustentabilidade energética, resiliência e soberania digital. A intenção não é criar uma moratória, mas “ordenar o modelo” para evitar uma “bolha digital” e garantir uma base sólida e soberana. Trata-se de uma abordagem que entende que a transformação digital tem uma dimensão física e geopolítica, não apenas de software.

Para a Espanha, a corrida pela IA não se resume a ter mais startups, mas a construir um ecossistema digital coeso, regulado e soberano. A iniciativa combina investimento direto em PMEs, criação de agências reguladoras e planejamento de infraestrutura. Embora o contexto brasileiro tenha suas próprias particularidades, o modelo espanhol oferece uma referência de como o poder público pode atuar como um catalisador estratégico, em vez de mero espectador.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España