Uma pesquisa anual do Morgan Stanley com seus estagiários na América do Norte trouxe à tona os hábitos de uma geração que está prestes a herdar o centro do capitalismo global. O levantamento, que ouviu mais de 500 jovens — a maioria com 21 anos ou menos —, revelou que mais de um quarto deles utilizou um aplicativo de mercado de previsão, como Kalshi ou Polymarket, no último ano.
O dado, reportado pelo Business Insider, vai além da curiosidade comportamental. Ele sinaliza, junto à adoção massiva de inteligência artificial, uma nova mentalidade que chega a Wall Street. A Geração Z não está apenas usando novas ferramentas; ela opera sob uma lógica diferente, combinando um apetite por novas formas de risco com uma profunda ansiedade sobre a estabilidade econômica e o futuro do trabalho.
O cassino regulado
A popularidade dos mercados de previsão entre os futuros banqueiros e analistas é um sinal dos tempos. Essas plataformas, que permitem apostar em eventos futuros — de decisões de política monetária a resultados eleitorais —, estão numa zona cinzenta entre ferramenta de hedge e casa de apostas. Segundo a pesquisa, 25% dos estagiários as utilizam, um número ligeiramente acima da média da população adulta americana (21%), mas abaixo dos 37% registrados na faixa etária de 18 a 34 anos, indicando que o grupo está na vanguarda da tendência.
O movimento não passa despercebido. Enquanto plataformas como a Kalshi tentam ativamente se posicionar como uma fonte de dados para clientes institucionais de Wall Street, reguladores e as próprias firmas financeiras olham com cautela. A preocupação com o uso de informação privilegiada é latente, e os códigos de conduta, como o do próprio Morgan Stanley, já começam a endereçar o tema. A questão é se esses mercados serão integrados como uma nova classe de ativos ou se permanecerão como um ecossistema paralelo e de risco.
A ambiguidade da automação
O outro lado da moeda é a relação da Geração Z com a inteligência artificial. O uso diário de ferramentas de IA saltou de 35% para 68% em um ano entre os estagiários, com 70% deles pagando por assinaturas. Eles usam a tecnologia para automatizar precisamente o trabalho que historicamente definiu o início de uma carreira em finanças: pesquisar, sumarizar textos e montar apresentações.
Contudo, essa fluência digital convive com o receio. Cerca de 61% dos jovens se dizem preocupados com a possibilidade de a IA substituir empregos no setor financeiro, e 74% temem o mesmo para outras indústrias. Um dos estagiários resumiu a angústia geracional: o desejo por estabilidade de carreira e família parece "ilusório" diante da realidade econômica. A automação é, para eles, tanto uma ferramenta de produtividade quanto uma ameaça existencial.
A pesquisa do Morgan Stanley funciona como um retrato da próxima década do mercado financeiro. A nova geração não chega apenas com mais habilidades digitais, mas com uma visão de mundo moldada pela instabilidade e pela tecnologia. A forma como Wall Street irá absorver, regular ou resistir a esses novos comportamentos definirá sua própria relevância futura.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





