Chloe Steinberg, uma investidora de venture capital com um histórico notável que inclui uma aposta inicial na Canva e a liderança da Equinox Ventures, tomou uma decisão que muitos no mercado de tecnologia considerariam radical: pausou sua carreira. Após o nascimento de seu segundo filho e um exit financeiramente transformador, ela trocou a rotina de aviões e salas de reunião por uma vida em Connecticut, priorizando o tempo com a família.

O que se seguiu, no entanto, não foi um período de tranquilidade, mas uma profunda crise de identidade. Em um relato pessoal publicado pelo Business Insider, Steinberg detalha como a ausência de um título profissional abalou sua percepção de valor próprio. A transição expõe uma tensão fundamental no mundo da alta performance: o peso que o ego e a identidade profissional exercem sobre a definição de sucesso.

A fatura do ego

Ao se mudar para uma nova cidade, a pergunta “o que você faz?” tornou-se um gatilho. A resposta “eu era uma investidora de VC” carregava um peso de passado que a incomodava. “De repente, eu era uma mãe em tempo integral. Ninguém sabia das minhas conquistas”, escreveu. A dificuldade, ela admite, estava em seu próprio ego. “Você quer que a sala saiba que você ainda tem o que é preciso”.

Essa experiência ressoa com a cultura de ecossistemas como o Vale do Silício ou a Faria Lima, onde a identidade profissional frequentemente se sobrepõe à pessoal. O valor de um indivíduo parece atrelado ao cargo, à empresa ou ao último cheque assinado. Steinberg questiona essa lógica, chamando de “estúpido” o fato de seu trabalho e sua capacidade intelectual não “contarem” por não estarem validados por um título formal.

Ambição e intuição

O afastamento também provocou uma reavaliação do conceito de ambição. Criada para ser uma “superrealizadora crônica”, ela agora vê a busca incessante por conquistas como um modelo insustentável. “Ambição pelo bem da ambição parece estúpido agora”, afirma. Para ela, o foco se deslocou de “quão duro você consegue ralar” para “quão efetivamente você consegue viver”.

Steinberg também reflete sobre como a senioridade em sua carreira a treinou para desconfiar de seus instintos — a mesma intuição que, segundo ela, define os grandes investidores. As melhores apostas são aquelas que 99% das pessoas consideram erradas. Ao se afastar da pressão do consenso e do “excesso de diligência” dos conselhos, ela sentiu um reencontro com a coragem e a certeza que marcam o início da vida e, ironicamente, o perfil de um bom investidor.

Recentemente, ela fez um novo investimento por conta própria, um movimento que validou sua capacidade de análise fora da estrutura de uma firma. Questionada sobre seus planos futuros, ela não oferece uma resposta concreta, apenas um critério: “Vou fazer algo significativo”. Para uma indústria obcecada com o próximo unicórnio, a reflexão de Steinberg serve como um lembrete de que a definição de valor pode, e talvez deva, ser encontrada em outro lugar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider