A agência tributária do Reino Unido (HMRC) acaba de conceder à consultoria francesa Capgemini um contrato de £37 milhões para migrar uma de suas plataformas fiscais mais críticas para a nova geração da SAP, o S/4HANA. Segundo reportagem do The Register, o acordo, que se estende até 2032, pode prolongar para 28 anos uma relação comercial que começou em 2004. O movimento reacende um debate clássico na gestão pública: a linha tênue entre a estabilidade de um parceiro de longa data e o aprisionamento tecnológico, ou vendor lock-in.

O peso da inércia

A longevidade da relação entre HMRC e Capgemini é emblemática. O vínculo original, sob o guarda-chuva do contrato "Aspire", tornou-se notório por seus custos. A estimativa inicial de £4,1 bilhões saltou para £10,4 bilhões ao longo de sua vigência, gerando margens de lucro consideráveis para a Capgemini e seus subcontratados. Embora o governo britânico afirme que cada novo contrato passa por um processo licitatório competitivo e independente, a realidade de sistemas de TI tão complexos — que processam mais de £800 bilhões em impostos anualmente — cria uma poderosa vantagem para o fornecedor incumbente. O conhecimento acumulado e a profunda integração com as operações do Fisco tornam a troca de parceiro uma operação de altíssimo risco e custo, favorecendo a inércia.

Competitividade em xeque?

O HMRC defende a lisura do processo, afirmando que a licitação foi aberta e transparente, com a participação de gigantes como Accenture e IBM. No entanto, a dinâmica do ecossistema tecnológico parece limitar o campo de jogo. Em um movimento separado, o próprio Fisco britânico concedeu à SAP um contrato de £275 milhões para o licenciamento do S/4HANA sem concorrência, alegando que a empresa alemã era a "única fornecedora com capacidade soberana". A leitura aqui é que, uma vez definida a plataforma de base (SAP), o universo de implementadores capazes de executar uma migração dessa magnitude e complexidade, especialmente em um ambiente de nuvem soberana, se afunila drasticamente. Não por acaso, a Capgemini anunciou recentemente sua certificação como parceira SAP Sovereign Cloud no Reino Unido, um alinhamento estratégico que dificilmente passa despercebido.

O caso britânico ilustra um dilema para governos em todo o mundo, incluindo o Brasil. A modernização de sistemas legados é inevitável, mas o ciclo de grandes projetos de TI parece perpetuar os mesmos atores, desafiando os princípios de livre concorrência e otimização de custos para o contribuinte. A questão que fica é como equilibrar a necessidade de expertise técnica com a renovação de fornecedores, evitando que parcerias se transformem em dependência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register