Um casal caminha lado a lado por um deserto sob um sol forte. O homem repousa a mão no ombro da companheira, que olha para o lado, lábios entreabertos, como se estivesse prestes a comentar algo à distância. Indiferentes a um vulcão em erupção ao fundo, poderiam passar por um par de flâneurs parisienses — se não estivessem nus e cobertos por uma densa pelagem.

À primeira vista, a fotografia Earliest Human Relatives (1994), de Hiroshi Sugimoto, é desconcertante. As figuras parecem reais, mas algo está fora do lugar. A cena, na verdade, retrata um antigo diorama do Museu Americano de História Natural, em Nova York. As figuras — reconstruções de Lucy, o famoso fóssil de Australopithecus afarensis, e um parceiro masculino — eram esculturas. A paisagem, uma pintura. Com sua câmera, Sugimoto completou a ilusão que o museu apenas iniciara, transformando o artificial em algo perturbadoramente vivo.

A câmera como máquina do tempo

Quando realizou essa imagem, Sugimoto já fotografava dioramas há quase vinte anos. A série, seu primeiro e mais longo corpo de trabalho, começou pouco depois de sua mudança para Nova York, em 1974. Ao visitar o museu, ele teve uma epifania. Vagando pelos salões escuros, ele notou que as exibições, com seus animais taxidermizados e cenários pintados, pareciam “totalmente falsas”. Mas, ao fechar um olho, simulando a visão monocular de uma câmera, a mágica acontecia: as emendas entre o tridimensional e o bidimensional desapareciam. De repente, as cenas pareciam reais.

Em 1975, ele voltou com uma câmera de grande formato e, após obter uma permissão de “turista”, montou tendas improvisadas para bloquear reflexos e realizou exposições de 20 minutos. A primeira imagem foi a de um urso polar sobre uma foca ensanguentada. “Minha vida como artista começou no momento em que vi com meus próprios olhos que tive sucesso em trazer o urso de volta à vida no filme”, escreveu ele mais tarde. Sua fotografia não apenas registrava o diorama; ela completava sua ambição original de ressurreição.

Um arquivo para o fim do mundo

O desejo de Sugimoto de reanimar os animais em exibição ecoa a motivação original dos criadores de dioramas. Figuras como Carl Akeley, um caçador e taxidermista pioneiro, viam os dioramas como um lamento pela devastação ambiental do início do século XX. Ao apresentar cenas espetaculares da vida selvagem, Akeley esperava angariar apoio para a conservação entre um público urbano. Havia um paradoxo em sua figura — um caçador que lamentava a destruição que ele mesmo, em parte, representava —, mas o objetivo era a preservação através da arte.

Hoje, os próprios dioramas se tornaram uma espécie ameaçada, substituídos por telas interativas e exibições mais modernas. Ao longo de cinco décadas, Sugimoto criou, inadvertidamente, um arquivo de uma arte em desaparecimento. Instituições que antes se irritavam com a alegação do artista de que as fotos pareciam “mais reais” que os próprios dioramas, hoje reconhecem que seu trabalho “honra os dioramas como a arte que são”, nas palavras de Stephen Quinn, que por quase 40 anos os construiu e restaurou no museu.

Agora, Sugimoto afirma que a série está quase completa. Ele diz sentir “alívio” por encerrar um trabalho de 50 anos. Para as últimas fotos, feitas em 2025, ele usou filme colorido pela primeira vez, revisitando dioramas que já havia fotografado em preto e branco. O artista, que sempre se interessou por paisagens desprovidas de figuras espetaculares, vê nelas visões proféticas de um mundo pós-humano. “A natureza sobreviverá”, afirma, com um certo conforto na ideia de que, um dia, a vegetação tomará conta dos arranha-céus e dos museus, e até mesmo sua própria fundação no Japão estará em ruínas. Milhares de anos no futuro, diz ele, as pedras ainda parecerão belas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Aperture