Numa época obcecada por otimização e decisões guiadas por dados, a obra da poeta polonesa Wislawa Szymborska, laureada com o Nobel de Literatura em 1996, emerge como um inesperado manual de estratégia. Seu poema “Possibilidades” é um inventário de preferências, uma declaração de identidade construída não por grandes narrativas, mas por uma sucessão de escolhas deliberadas: “Prefiro filmes. Prefiro gatos. Prefiro os carvalhos ao longo do Warta. Prefiro Dickens a Dostoiévski.”
À primeira vista, um texto literário pode parecer deslocado numa discussão sobre negócios. No entanto, a leitura atenta revela um manifesto sobre o poder da especificidade. Szymborska, sem o intuito, escreveu um guia sobre por que ter um ponto de vista — e defendê-lo — é mais poderoso do que tentar agradar a todos. Para fundadores, estrategistas de produto e investidores, a lição é direta: a indiferença é o caminho mais curto para a irrelevância.
A estratégia da preferência
O poema é um antídoto para a paralisia da análise e para a cultura do “tanto faz”. Ao afirmar “prefiro a cor verde” ou “prefiro o absurdo de escrever poemas ao absurdo de não escrever poemas”, a autora não argumenta que suas escolhas são objetivamente superiores, mas que elas são suas. No mundo dos negócios, isso se traduz em posicionamento de marca e foco de produto. Uma startup que tenta ser tudo para todos acaba não sendo nada para ninguém. A preferência por um nicho, por uma funcionalidade específica ou por um modelo de negócios idiossincrático é o que cria valor e diferenciação.
A linha “prefiro gostar de pessoas a amar a humanidade” é particularmente ressonante. Ela contrapõe a ação concreta e pessoal (construir uma comunidade, atender um cliente real) à abstração vazia (declarar uma missão genérica para “mudar o mundo”). A preferência de Szymborska é pela terra firme das relações e dos gostos definidos, um território muito mais fértil para a inovação do que os discursos grandiloquentes que não se conectam com ninguém em particular.
O absurdo de empreender
Duas preferências se destacam para o ecossistema de inovação: “prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem” e “prefiro o absurdo de escrever poemas ao absurdo de não escrever poemas”. A primeira encapsula a jornada do fundador. O “inferno do caos” é a startup em estágio inicial: imprevisível, desestruturada, mas vibrante e cheia de liberdade. O “inferno da ordem” é a grande corporação: segura, processual, mas frequentemente lenta e avessa ao risco. A escolha entre os dois é uma das decisões fundamentais de uma carreira em tecnologia.
A segunda preferência é uma defesa do próprio ato de criar. Construir uma empresa do zero, assim como escrever um poema, pode ser visto como um ato de profunda irracionalidade diante das probabilidades de fracasso. Contudo, a alternativa — a inação, o conformismo — representa um absurdo ainda maior. É a escolha pela agência, mesmo que o resultado seja incerto. Szymborska celebra a ação que define a identidade, seja ela artística ou empresarial.
No fim, o poema não oferece respostas, mas um método. Em um mundo que busca incessantemente a resposta “certa” nos dados, a obra de Szymborska lembra que as grandes estratégias, assim como a própria vida, são construídas a partir de um mosaico de preferências subjetivas, idiossincráticas e, por vezes, inexplicáveis. A questão que fica é como equilibrar essa convicção interna com a validação externa do mercado.
Com reportagem de Brazil Valley
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