Economistas do Banco Central Europeu (BCE) soaram um alarme sobre a estabilidade financeira da zona do euro, mas o risco não está em Frankfurt ou Paris, e sim no Vale do Silício. Segundo um artigo publicado no blog do BCE, os lares europeus possuem uma exposição indireta de €440 bilhões às sete maiores empresas de tecnologia dos EUA — as chamadas 'Sete Magníficas' —, um risco de concentração que muitos investidores podem desconhecer.
A análise, que não representa a posição oficial do banco, argumenta que a febre por ações como Nvidia, Apple e Microsoft, canalizada majoritariamente por meio de fundos de índice (ETFs), tornou-se um potencial problema sistêmico. A questão central é que uma correção acentuada nos valuations dessas companhias não seria um evento isolado no mercado americano.
O contágio via ETFs
A principal porta de entrada para este risco é a estrutura passiva dos investimentos modernos. Ao comprar cotas de um ETF que replica um índice global como o S&P 500, o investidor de varejo está, sem perceber, apostando alto na performance de um pequeno grupo de empresas. A concentração não se limita aos pequenos investidores: seguradoras e fundos de pensão europeus também detêm, respectivamente, €250 bilhões e €200 bilhões em exposição a essas mesmas ações.
Os autores do artigo lembram que a história é marcada por ciclos de euforia e colapso em revoluções tecnológicas, e apontam que uma correção nas atuais cotações é provável. O perigo, segundo eles, é que uma onda de saques em ETFs forçaria os gestores a vender ativos, pressionando ainda mais os preços para baixo e criando um ciclo vicioso de perdas que se espalharia pelo sistema financeiro.
Um problema sem fronteiras
A alta correlação histórica entre os mercados de ações dos EUA e da Europa significa que “uma correção nos EUA não deixará a zona do euro incólume”, afirmam os economistas. O que torna o cenário atual mais delicado é o arsenal limitado das autoridades para conter uma crise. Diferente da bolha pontocom no início dos anos 2000, hoje há muito menos espaço para cortes de juros ou para o uso de políticas fiscais expansionistas como amortecedor.
Nesse contexto, uma queda abrupta das 'Sete Magníficas' transcenderia o mercado financeiro, com potencial para afetar a confiança, as condições de crédito e as decisões de contratação na economia real europeia. A conclusão é que as consequências da euforia com a inteligência artificial nos EUA não ficariam restritas ao continente americano.
O alerta serve como um lembrete de que, num sistema financeiro globalizado, a diversificação é mais do que uma recomendação de portfólio; é um pilar de estabilidade. A interconexão que impulsionou o valor dessas gigantes de tecnologia pode ser o mesmo canal que propagaria uma crise, atrelando o destino financeiro da Europa a valuations decididos do outro lado do Atlântico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





