A dívida pública da França, que cresceu para níveis recordes durante os mandatos do presidente Emmanuel Macron, tornou-se um tema central para as próximas eleições presidenciais e gera apreensão entre investidores. Com o país já enfrentando profundas tensões sociais, os candidatos à sucessão de Macron estão sob pressão para apresentar soluções que controlem o endividamento, que, segundo projeções, deve atingir 122% do Produto Interno Bruto (PIB). A situação das finanças públicas francesas deve dominar a campanha eleitoral.
O governo francês anunciou um orçamento que, mesmo com cortes de gastos propostos de 54 bilhões de euros, não se aproximará do equilíbrio no próximo ano. A dívida nacional deve crescer para quase 122% do PIB, um patamar inédito. O ministro do Orçamento, David Amiel, defendeu os cortes como essenciais, antecipando um "difícil combate" para aprová-los no parlamento. "Não podemos varrer a poeira para debaixo do tapete", declarou.
Um Cenário de Endividamento Crescente
A França, segunda maior economia da Europa, ostenta um endividamento público que saltou de 97,9% do PIB em 2019 para 114% em 2020, impulsionado pela pandemia e pela crise energética. Embora a dívida francesa seja menor que a da Grécia (143,5%) ou Itália (138,9%), e até menor que a dos EUA (122,6%), o país carece da vantagem de ter a moeda de reserva mundial, que confere aos EUA maior flexibilidade para empréstimos. Para financiar seus déficits anuais, que persistem há 50 anos, a França recorre a empréstimos, elevando o custo do serviço da dívida, que já consome cerca de 7% do orçamento estatal. Com as taxas de juros em alta, estima-se que os custos de juros ultrapassem 90 bilhões de euros em 2027, superando os gastos previstos com defesa e educação.
Propostas Radicais e Respostas Cautelosas
Diante desse cenário, propostas para lidar com a dívida ganham destaque. O candidato presidencial de esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, sugeriu o cancelamento dos títulos do governo francês detidos pelo Banco Central Europeu (BCE), argumentando que isso liberaria fundos para investimento público. Mélenchon descreveu a proposta como um "congelamento" da dívida, efetivamente equivalente a um cancelamento, com juros baixos ou nulos e sem prazo de pagamento. No entanto, essa ideia enfrenta forte oposição. A líder de extrema-direita, Marine Le Pen, defende reformas para "limpar" as finanças públicas, enquanto a presidente do BCE, Christine Lagarde, classificou a proposta de Mélenchon como uma "pura violação" dos tratados da UE, que proíbem o financiamento de governos por bancos centrais. Lagarde alertou que tal medida poderia levar credores a exigir juros exorbitantes ou a recusar novos empréstimos à França.
Avaliações de Risco e Estrutura do Investidor
Agências de classificação de risco mostram visões divergentes. A Scope rebaixou as notas de longo prazo da França em setembro, citando a "deterioração sustentada do panorama fiscal, caracterizada pela crescente dívida pública, déficits fiscais persistentemente altos e progresso limitado em reformas estruturais". Por outro lado, a Fitch Ratings manteve a classificação soberana da França em "A+" com perspectiva estável em agosto, apoiada pela "grande e diversificada economia de alta renda, um setor bancário sólido e uma base de investidores diversificada". A maior parte da dívida francesa é detida por seguradoras, bancos, bancos centrais e fundos de pensão.
Um Dilema Financeiro e Político
A França se encontra em uma encruzilhada financeira, onde a gestão da dívida pública será determinante para a estabilidade econômica e política nos próximos anos. Com a pressão eleitoral e a necessidade de consolidação fiscal criando um dilema complexo, resta saber se o próximo governo optará por medidas de austeridade convencionais ou por abordagens mais heterodoxas, como o controverso cancelamento da dívida. As decisões tomadas agora ecoarão nas finanças públicas, na confiança dos investidores e na estabilidade da zona do euro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





