Num momento em que o capital de risco busca a próxima 'climate tech' e o mercado financeiro se debruça sobre métricas de ESG, uma voz improvável ressurge para assombrar o debate: a de Karl Marx. Longe de ser apenas uma relíquia da Guerra Fria, o pensamento do filósofo alemão do século 19 está sendo revisitado como uma das mais antigas e contundentes críticas à relação predatória entre o capitalismo e o meio ambiente. A tese é o cerne do trabalho do acadêmico japonês Kōhei Saitō, cujo livro “Capital From Zero” propõe uma leitura ecológica de Marx.

Com base em trechos da obra publicados pelo portal Lit Hub, a análise de Saitō argumenta que Marx, muito antes da popularização do termo 'antropoceno', já havia diagnosticado a contradição fundamental entre a necessidade de expansão infinita do capital e os ciclos finitos da natureza. A leitura aqui não é um chamado à revolução proletária, mas um convite a examinar as fundações de um sistema cuja lógica intrínseca, segundo essa visão, leva à exaustão dos recursos que o sustentam. Para o leitor de negócios e tecnologia, é um framework estrutural para entender por que, apesar de todos os avanços, a crise climática continua a se aprofundar.

A Ruptura Metabólica

O conceito central na ecologia marxista de Saitō é a “ruptura metabólica”. A ideia não nasceu de uma epifania filosófica, mas da leitura atenta que Marx fez de um contemporâneo, o químico alemão Justus von Liebig. Em meados do século 19, Liebig criticava a agricultura moderna, que buscava maximizar lucros e esgotava rapidamente a fertilidade do solo, um modelo que ele chamou de “sistema de roubo”. Para Liebig, essa prática ameaçava a própria base da civilização.

Marx absorveu essa crítica e a expandiu em “O Capital”. Ele viu uma conexão direta entre a exploração do solo e a exploração do trabalhador. A mesma “sede cega por lucro” que exauria a terra também minava a “força vital” do operário urbano. A lógica era a mesma: extrair o máximo de valor no menor tempo possível, ignorando os ciclos naturais de recuperação — seja do solo ou do ser humano. A produção capitalista, ao concentrar a população nas cidades, quebrava o metabolismo entre homem e terra, impedindo que os nutrientes consumidos na forma de alimentos e roupas retornassem ao solo. O resultado era duplo: a destruição da saúde física do trabalhador urbano e da vida intelectual do trabalhador rural, criando uma fissura social e ecológica.

A Externalização do Custo Real

A dinâmica descrita por Marx no século 19 se globalizou e se intensificou. O “sistema de roubo” hoje opera em escala planetária, e seu mecanismo principal é a externalização. Os custos reais da produção — ambientais, sociais e humanos — não entram na planilha de custos da empresa, mas são empurrados para um “fora” conveniente: para as gerações futuras, para os países do Sul Global e para a própria natureza. O lema do capitalista, segundo Marx, resume essa atitude: “Après moi, le déluge!” (Depois de mim, o dilúvio).

Os exemplos citados por Saitō são familiares ao Brasil. A rápida conversão da Amazônia e do Cerrado em pastos e lavouras para produção de carne e grãos para exportação é a “ruptura metabólica” em ação. O mesmo se aplica à mineração de metais raros na América do Sul e na África, essenciais para smartphones e computadores, frequentemente associada a violações de direitos humanos. O preço baixo de um bife ou de um novo gadget esconde o verdadeiro custo, pago pela degradação de biomas e pela precarização de vidas a milhares de quilômetros de distância. O capital, em sua busca por eficiência, simplifica o mundo em preços, mas ignora a complexidade e a interdependência dos ecossistemas.

O conflito fundamental, portanto, é entre duas temporalidades: a do capital, que é linear, acelerada e busca o crescimento exponencial; e a da natureza, que é cíclica, lenta e baseada na regeneração. Marx previu que, em certo ponto, as relações de produção se tornariam “grilhões” para o desenvolvimento das forças produtivas. A questão que Saitō coloca no ar é se já não chegamos a esse ponto, onde o próprio capitalismo se tornou o principal obstáculo para a gestão sustentável de um planeta finito. A resposta não está em Marx, mas a pergunta que ele formulou há 150 anos nunca foi tão atual.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub