Quatro dos mais influentes grupos de interesse do Brasil — representando desde grandes corporações e o agronegócio até a sociedade civil e think tanks — entregaram aos candidatos à presidência um recado uníssono: a era das metas climáticas vagas acabou. O próximo ciclo de governo, de 2027 a 2031, será o da cobrança por resultados concretos. As propostas, analisadas em um levantamento do portal Reset, desenham um roteiro para a transição de baixo carbono que, pela primeira vez, é tratado como estratégia de desenvolvimento econômico e competitividade.

Na superfície, a convergência é notável. O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o Instituto Talanoa e o Observatório do Clima (OC) concordam em quase tudo que envolve o uso da terra. Mas a leitura atenta dos documentos revela uma fratura exposta que definirá a política energética da próxima década: o que fazer com o petróleo e, por extensão, com a Petrobras.

O consenso possível

Nos temas de floresta e agro, há um alinhamento pragmático. O combate ao desmatamento, a implementação do Código Florestal, a aceleração do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a transição para uma agropecuária de baixo carbono são vistos por todos como pilares inegociáveis. A novidade é que o argumento deixou de ser puramente ambiental para se tornar uma questão de sobrevivência econômica. A rastreabilidade de cadeias produtivas, por exemplo, não é mais um luxo de ONG, mas uma exigência para garantir acesso a mercados como o europeu, que se fecha com regulações como a EUDR (Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento).

A lógica é a do capital. As propostas sugerem condicionar o acesso a linhas de crédito do Plano Safra ao cumprimento de métricas de sustentabilidade, com juros menores para produtores regulares. A regularização fundiária e ambiental, antes vista como um entrave burocrático, é agora apresentada como a chave para destravar investimentos privados. A bioeconomia e a restauração florestal em larga escala completam o pacote, vendidas como a próxima fronteira de geração de emprego e renda. É um consenso construído sobre a premissa de que o verde pode, e deve, gerar lucro.

A fratura do fóssil

É na transição energética que o bloco se desfaz. De um lado, Observatório do Clima e Instituto Talanoa defendem uma ruptura drástica com os combustíveis fósseis. As propostas são diretas: fim de novos leilões de exploração de petróleo, abandono do carvão mineral e, crucialmente, um veto à exploração em novas fronteiras como a Margem Equatorial. A tese é que a expansão da produção de petróleo não resolve a vulnerabilidade do Brasil aos preços internacionais e apenas adia uma transição inevitável, prendendo capital em ativos de risco por décadas. Para eles, a Petrobras precisa ser reinventada como uma empresa de energia, não de petróleo.

Do outro lado, CEBDS e Coalizão Brasil, que representam a voz de grandes empresas e do agro, adotam uma postura mais gradualista. O foco de suas propostas está na expansão de biocombustíveis, hidrogênio verde e fontes renováveis como solar e eólica. A questão da exploração de novas fronteiras petrolíferas, contudo, é notavelmente ausente de seus documentos. O silêncio é eloquente e sugere uma visão de transição como adição — somar novas fontes de energia limpa à matriz — em vez de substituição, que implicaria em desinvestimento e abandono de ativos fósseis. O debate sobre o financiamento segue a mesma lógica: uns apostam em mecanismos de mercado, enquanto outros defendem que apenas recursos públicos e não reembolsáveis podem endereçar a adaptação de municípios mais vulneráveis.

As propostas entregues aos presidenciáveis, portanto, não oferecem um, mas múltiplos caminhos. A convergência na agenda de uso da terra mostra que o Brasil já entendeu como transformar seu capital natural em vantagem competitiva. A divergência sobre o petróleo, no entanto, revela que o país ainda não decidiu se a transição energética será uma evolução gradual ou uma revolução estrutural. A resposta a essa questão definirá não apenas o legado climático do próximo governo, mas o próprio modelo de desenvolvimento do Brasil no século 21.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Capital Reset