De um lado, notícias de demissões em massa na galeria Pace e o fechamento de espaços respeitados como Lyles & King. Do outro, números que soam como música para o mercado: Christie's e Sotheby's anunciam os melhores resultados de primeiro semestre em anos, movimentando US$ 4,5 bilhões e US$ 4,4 bilhões, respectivamente.

A aparente contradição, no entanto, revela menos sobre uma recuperação generalizada do mercado de arte e mais sobre uma profunda transformação nos modelos de negócio dos seus maiores players. Uma reportagem da publicação especializada ARTnews sugere que o dado mais relevante não é quanto dinheiro foi movimentado, mas como. A resposta indica que as grandes casas de leilão mudaram de pele, deixando para trás boa parte do mercado de galerias, ainda preso a um modelo de negócios que parece ter ficado no passado.

A nova métrica do sucesso

Por anos, o termômetro do sucesso nos leilões era o preço recorde de uma única obra, a manchete sobre um Picasso ou um Basquiat arrematado por dezenas de milhões de dólares. Os relatórios recentes contam uma história diferente. O foco agora está na participação: Christie's celebra o número recorde de licitantes e altas taxas de venda em obras na faixa de US$ 20 mil a US$ 100 mil. A Sotheby's destaca a maior taxa de venda em uma década e uma média de quase cinco lances por lote. A métrica mudou da altura do pico para a profundidade do oceano.

Essa mudança de narrativa é sustentada por uma estratégia clara: a valorização de grandes coleções em detrimento de obras-troféu isoladas. Os resultados foram ancorados por espólios de peso, como as coleções de S.I. Newhouse na Christie's e de Robert Mnuchin na Sotheby's. A leitura é que, no mercado atual, a proveniência e a curadoria de uma coleção inteira importam mais do que o brilho de uma única peça. É a prova de que a demanda é consistente, e não apenas o resultado de uma disputa inflada por um item específico.

A agilidade do martelo contra a inércia da galeria

Mas por que as casas de leilão parecem tão saudáveis enquanto as galerias, que representam o mercado primário, enfrentam um doloroso ajuste? Parte da resposta está na velocidade de adaptação. Com o fim do dinheiro barato da pandemia, a corrida especulativa por artistas emergentes esfriou. Colecionadores redirecionaram sua atenção para mestres do pós-guerra e arte moderna — categorias onde a oferta é escassa e a demanda, durável. As casas de leilão ajustaram suas estimativas de preço para baixo mais rapidamente, tornando-se, paradoxalmente, lugares mais atraentes para comprar.

Enquanto isso, muitas galerias ainda se ajustam ao mercado que elas mesmas ajudaram a construir durante o boom. A expansão acelerada, com abertura de novas filiais e ampliação de equipes, criou uma estrutura de custos para um nível de euforia que não existe mais. O encolhimento atual, portanto, parece menos um colapso e mais um sóbrio retorno à realidade. As casas de leilão já se adaptaram ao mercado que existe hoje; boa parte das galerias ainda lida com o fantasma do mercado de ontem.

A resiliência de Christie's e Sotheby's, contudo, tem um segredo mais profundo. Elas não se apresentam mais como meras casas de leilão. Seus relatórios dão tanto destaque a serviços financeiros, empréstimos, vendas privadas, imóveis de luxo e consultoria quanto à arte. A Phillips se tornou sinônimo de relógios raros, e a Heritage construiu um negócio bilionário com colecionáveis que vão de cartas de Pokémon a videogames antigos. Elas se tornaram negócios diversificados para clientes ultra-ricos, onde o leilão é apenas uma das ferramentas para atrair e reter uma clientela exclusiva. A questão que fica não é se o mercado de arte se recuperou, mas se o resto dele conseguirá se adaptar tão bem quanto seus maiores jogadores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews