Em um ateliê florentino, por volta de 1487, um aprendiz de apenas 12 ou 13 anos observava uma gravura do mestre alemão Martin Schöngauer. A cena, 'A Tentação de Santo Antônio', mostrava o santo asceta atormentado por demônios no ar. O jovem não se limitou a copiar. Ele foi ao mercado, estudou as escamas e as texturas iridescentes dos peixes e de outros animais, e usou essas observações para dar aos demônios uma vitalidade grotesca e inédita. O aprendiz era Michelangelo Buonarroti, e a obra que produziu era tão consumada que, por quase quinhentos anos, o mundo acreditou ser de seu mestre, o proeminente pintor Domenico Ghirlandaio.
O fato de uma obra do divino Michelangelo ter sua autoria ofuscada por tanto tempo é, em si, um testemunho de sua genialidade precoce. A pintura a óleo sobre painel de madeira era de tal qualidade que parecia implausível ter saído das mãos de um adolescente. Assim, a história da arte a catalogou como um trabalho de Ghirlandaio, uma peça competente dentro de um corpo de obra respeitado, mas não a centelha de um dos maiores artistas que o mundo conheceria.
A redescoberta
A verdade começou a emergir séculos depois, quando a pintura foi levada por um negociante de arte ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York, para restauro. Especialistas do museu notaram imediatamente algo familiar. A paleta de cores, a forma como as figuras eram construídas e a energia da composição ecoavam outras obras de Michelangelo, em especial os afrescos monumentais que ele pintaria anos mais tarde no teto da Capela Sistina.
A suspeita dos curadores foi confirmada pela ciência. A reflectografia infravermelha, uma técnica que permite ver através das camadas superficiais de tinta, revelou correções e ajustes feitos durante o processo criativo. Eram os chamados pentimenti, as hesitações e mudanças de ideia do artista. Isso provava que a obra não era uma mera cópia, mas uma criação original, forjada em tempo real. A mão era, inequivocamente, a de Michelangelo.
Um tesouro americano
Confirmada a autoria, 'A Tentação de Santo Antônio' assumiu um novo status. É uma das únicas quatro pinturas de cavalete conhecidas de Michelangelo, um artista cuja fama repousa majoritariamente em suas esculturas e afrescos. Pouco depois de sua reatribuição, a obra foi adquirida pelo Kimbell Art Museum em Fort Worth, no Texas, um destino improvável para um artefato tão central da Renascença italiana.
Hoje, ela reside ali como a única pintura de Michelangelo em todo o continente americano. Longe de Florença e de Roma, a obra conta uma dupla história: a do tormento de um santo e a da jornada de uma obra-prima perdida e reencontrada. Olhar para os demônios com suas escamas de peixe é se perguntar sobre o que mais pode estar escondido, à vista de todos, nos ateliês dos grandes mestres.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Atlas Obscura





