Em Hong Kong, um de seus mais conhecidos pontos de peregrinação e turismo, o Monastério dos Dez Mil Budas, se sustenta sobre uma dupla imprecisão. A primeira é matemática: o complexo abriga, na verdade, mais de 12.000 estátuas. A segunda é técnica: não se trata de um monastério, pois nenhum monge reside no local. A gestão é feita inteiramente por leigos.
Essas curiosidades, longe de diminuírem sua importância, definem a identidade de um lugar que se transformou junto com a cidade a seus pés. O que começou como um projeto em uma colina com vista para campos agrícolas é hoje um santuário que paira sobre a densa paisagem urbana, oferecendo uma janela para uma Hong Kong que não existe mais.
Uma fundação de equívocos
A construção do complexo, que se estende por oito hectares, começou em 1949 por iniciativa de seu fundador, Yuet Kai. Concluído em 1957, o espaço hoje compreende cinco templos, quatro pavilhões e um pagode de nove andares. A ausência de uma comunidade monástica residente desafia a definição tradicional de um monastério, tornando-o um templo público em sua essência, operado por uma equipe dedicada de civis.
Talvez o elemento mais fascinante seja o corpo embalsamado e coberto de ouro do próprio Yuet Kai, exumado oito anos após seu sepultamento e hoje em exibição. O gesto reforça o caráter pessoal e idiossincrático do projeto, que parece mais a visão de um homem do que uma instituição formal. A subida íngreme até o templo principal, ladeada por 500 estátuas de Arhats em tamanho real, prepara o visitante para a escala e a excentricidade do lugar.
Santuário em meio à metrópole
Quando o monastério foi finalizado, sua vista era para a vila de Pai Tau e os campos que, mais tarde, dariam lugar ao município de Sha Tin Hui. Nos anos 1970, essa paisagem foi novamente transformada com o desenvolvimento da Sha Tin New Town, uma das cidades-satélite planejadas que redefiniram a geografia dos Novos Territórios de Hong Kong.
Hoje, o complexo serve como um refúgio de tranquilidade na franja de uma metrópole agitada. As estátuas douradas, confeccionadas por artistas das províncias de Yunnan e Guangdong, criam uma atmosfera de serenidade que contrasta com a expansão urbana visível do alto. O monastério funciona, assim, como um arquivo físico e espiritual, preservando uma calma que a cidade ao redor há muito tempo substituiu por concreto e velocidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Atlas Obscura





