A plataforma Fashion Asia Hong Kong celebrou seu décimo aniversário transformando seu tradicional prêmio “10 Asian Designers To Watch” em um desfile. O evento reuniu dez estilistas da China continental, Hong Kong, Tailândia, Coreia do Sul e Filipinas, revelando uma nova safra de talentos que está redesenhando discretamente os contornos da moda na região. A vitrine, contudo, foi apenas o ponto de partida para uma conversa mais profunda.

Por trás da diversidade de estilos, um fio condutor pragmático une esta geração. Em entrevistas concedidas ao Hypebeast, os designers demonstraram um foco quase obsessivo no equilíbrio entre expressão artística e viabilidade comercial. Longe das grandes narrativas de disrupção, eles constroem suas marcas com uma sobriedade notável, priorizando o artesanato, a sustentabilidade do negócio e a busca por uma linguagem que seja autenticamente asiática, sem se render a estereótipos fabricados para o olhar ocidental.

O artesanato como estratégia

Para estes criadores, a técnica artesanal não é um ornamento nostálgico, mas uma estratégia de negócio. Disaya Sorakraikitikul, da Tailândia, afirma que seu processo criativo sempre começa com uma técnica específica, não com uma tendência. Para ela, traduzir cultura em moda é menos sobre “reproduzir diretamente motivos tradicionais” e mais sobre capturar “a emoção e a paciência por trás da confecção”. É uma forma de agregar valor e, ao mesmo tempo, desacelerar o ciclo frenético do consumo.

Essa abordagem permite justificar preços mais elevados e criar um diferencial competitivo. O chinês Sifan Chen, por exemplo, enfrenta a resistência de compradores ao preço de suas peças explicando detalhadamente a origem dos materiais — como uma jaqueta com aparência de jeans, mas tecida à mão com caxemira e linho em teares antigos. A ambição, aqui, não é grandiosa, mas precisa: “mostrar uma cultura asiática mais diversa, em vez da fantasia do Oriente vista sob um sistema ocidental”, afirma Chen. Trata-se de uma afirmação de identidade através do fazer, não de símbolos superficiais.

A tensão produtiva entre arte e caixa

O que mais surpreende nesta geração é a franqueza com que falam de dinheiro. A dicotomia entre criatividade e comércio, um drama perene na moda, é tratada por eles como uma tensão produtiva e necessária. “A primeira coisa que uma marca deve considerar é se você consegue sustentar o negócio, e isso depende do fluxo de caixa”, declara Kinyan Lam, de Hong Kong. Com três anos de operação, ele prioriza peças de uso diário e adia criações mais conceituais até que sua cadeia de suprimentos esteja consolidada.

Essa mentalidade ecoa em outros estúdios. A dupla sul-coreana por trás da LEJE fala em encontrar uma “harmonia essencial entre originalidade artística e praticidade comercial”. O resultado é uma moda que busca ser desejável e, crucialmente, usável. A dupla Tigerstrolling, também de Hong Kong, resume a filosofia após um conselho da crítica Susie Bubble: uma peça pode ser altamente criativa, mas precisa ser algo que “as pessoas realmente queiram possuir”. É um pragmatismo que não dilui a visão, mas garante sua sobrevivência e relevância no mercado real.

No agregado, os dez designers representam menos uma revolução ruidosa e mais a construção silenciosa de um novo centro de gravidade. Eles não buscam a validação dos polos tradicionais de Paris ou Nova York. Em vez disso, criam um vocabulário próprio, enraizado no artesanato local, calibrado pela realidade do mercado e confiante em sua própria perspectiva. A moda que emerge de seus ateliês é um reflexo de um novo eixo econômico e cultural, que está aprendendo a ditar suas próprias regras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast