O letreiro de neon piscando na beira da estrada. A promessa de anonimato e a liberdade de um carro em movimento. Por décadas, o imaginário do motel americano foi construído pelo cinema, oscilando entre o cenário de crimes em Psicose e o refúgio de fugitivos em Thelma & Louise. Era um arquétipo cultural, um misto de fascínio e decadência.

Foi essa imagem que a jornalista Ellie Seymour carregava até sua primeira road trip pelo oeste americano. A experiência real, no entanto, revelou uma história mais complexa, que agora é o centro de seu novo livro, Vintage Motels: America’s Most Iconic Motels, Beautifully Restored, que documenta a transformação desses espaços.

A arquitetura da estrada

A obra de Seymour documenta a ascensão e queda desses ícones. O termo "motel" nasceu em 1925, uma abreviação funcional para o "Milestone Motor Hotel" de Arthur Heineman na Califórnia. A ideia — acomodações simples com estacionamento na porta — explodiu na era de ouro do automóvel após a Segunda Guerra. Nos anos 60, mais de 60 mil motéis pontilhavam as rodovias americanas, cada um uma pequena experiência arquitetônica, um reflexo do otimismo do pós-guerra. Mas a criação do sistema de autoestradas interestaduais e a popularização das viagens aéreas condenaram muitos ao abandono, transformando-os nos cenários decadentes que o cinema eternizou.

Do noir ao boutique

O livro, no entanto, foca na ressurreição. Seymour cataloga 40 motéis que foram resgatados por uma nova geração de proprietários e designers. Em vez de demolição, a aposta é na restauração que celebra o passado. Lugares como o Hotel Lucine no Texas ou o Skyview na Califórnia mostram como a estética de meados do século — das piscinas em formato de rim aos painéis de madeira — está sendo reimaginada. Alguns projetos funcionam como cápsulas do tempo, meticulosamente preservados. Outros são reinterpretações minimalistas que dialogam com o design contemporâneo.

O que une esses projetos é o resgate de uma identidade. Os letreiros de neon, antes sinais de um lugar anônimo, voltam a brilhar como emblemas de design e destino. A nostalgia, aqui, não é apenas um filtro estético. É um modelo de negócio que pergunta o que vale a pena preservar — e reinventar — da cultura que moldou as estradas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom