Um carro com a aerodinâmica de um foguete, mas com o coração de uma máquina de construção, acaba de redefinir os limites da propulsão a hidrogênio. O veículo JCB Hydromax, pilotado pelo britânico Andy Green, estabeleceu um novo recorde mundial de velocidade em terra para carros com motor de combustão a hidrogênio, atingindo uma média de 653,9 km/h em duas passagens no deserto de sal de Bonneville, em Utah.

O feito, reportado pelo site Space.com, não é apenas uma quebra de recorde — o anterior era de 488 km/h —, mas uma contundente demonstração de força da JCB, uma das maiores fabricantes de equipamentos de construção do mundo. A empresa está investindo pesado para provar a viabilidade do hidrogênio como combustível, não em células de combustível que geram eletricidade, mas em motores de combustão interna adaptados. Este recorde é a sua mais veloz peça de marketing até agora.

Do canteiro de obras para a pista

O detalhe mais relevante da façanha tecnológica não está na velocidade final, mas na origem dos motores. O JCB Hydromax é equipado com dois propulsores que, em sua configuração original, foram projetados para a indústria da construção, gerando modestos 74 cavalos de potência. A adaptação para um carro de corrida de alta performance busca exibir a robustez, confiabilidade e versatilidade da tecnologia.

A mensagem da JCB é clara: se um motor desenhado para o trabalho pesado em um canteiro de obras pode ser levado a mais de 650 km/h, sua aplicação em caminhões, escavadeiras e tratores é perfeitamente plausível. É uma aposta estratégica que busca um caminho alternativo à eletrificação total para descarbonizar o setor de máquinas pesadas, aproveitando a infraestrutura e o conhecimento existentes em motores de combustão.

A aposta na combustão

No universo do hidrogênio, há duas grandes vertentes. A mais conhecida é a da célula de combustível (fuel cell), que combina hidrogênio e oxigênio para gerar eletricidade e mover um motor elétrico, emitindo apenas vapor d'água. A outra, a aposta da JCB, é a queima direta de hidrogênio em um motor de combustão interna, similar a um motor a gasolina ou diesel. Embora não produza CO2, este processo pode gerar óxidos de nitrogênio (NOx), um desafio técnico que a indústria busca mitigar.

O recorde do Hydromax dá tração à narrativa do motor a combustão de hidrogênio como uma solução de transição ou mesmo definitiva para segmentos onde a densidade energética e a robustez são mais críticas que a eficiência máxima. Para a JCB, é uma forma de defender seu território e sua expertise em motores térmicos em um futuro de baixo carbono.

Enquanto a corrida pela eletrificação domina o debate nos carros de passeio, a disputa pela hegemonia nos veículos pesados e industriais está longe de ser decidida. O recorde no deserto de Utah mostra que a combustão de hidrogênio não pode ser descartada — e que a JCB acaba de colocar um pé muito rápido nesse acelerador.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com