O Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA) decidiu usar inteligência artificial para reinterpretar um dos mestres do século XX. Numa nova exposição focada em Henri Matisse e no fauvismo, a instituição, em parceria com o Google Arts & Culture, está utilizando modelos de IA generativa para, segundo ela, aprofundar a experiência do visitante. A iniciativa inclui desde animações do ambiente parisiense de 1905 até recriações em vídeo que extrapolam os limites das telas do pintor.

A decisão imediatamente polarizou opiniões, ecoando, ironicamente, a própria recepção da obra de Matisse em sua época. Quando o quadro “Mulher com Chapéu” (“Femme au chapeau”) foi exibido pela primeira vez, um crítico declarou que era como se “uma lata de tinta tivesse sido atirada na cara do público”. Hoje, a nova lata de tinta é digital, e a questão que se impõe é se essa tecnologia serve como uma ponte para a arte ou como um véu que ofusca a intenção original do artista.

A Imersão vs. a Intenção

Dois experimentos centrais com IA marcam a exposição. O primeiro é um filme animado que recria as ruas de Paris no início do século XX, buscando transportar o público para o contexto histórico em que a obra de Matisse surgiu. O segundo, mais controverso, utiliza o modelo de vídeo Veo, do Google, para “expandir” pinturas selecionadas. Em uma das telas, a figura de “A Moça com Olhos Verdes” levanta-se e caminha pelo ateliê do artista, recriado digitalmente com base em registros históricos.

Segundo Janet Bishop, curadora-chefe do SFMOMA, a colaboração com o Google, iniciada no começo de 2026, não foi um processo automatizado, mas um trabalho “muito intensivo em mão de obra” e historicamente acurado. Em entrevista ao The Atlantic, Bishop defende o uso da IA como uma ferramenta para engajar diferentes perfis de público, especialmente os mais jovens, acostumados à linguagem das telas. Para a curadoria, trata-se de uma forma de imersão, não de substituição. A proximidade do museu com o Vale do Silício, aponta ela, também impulsiona a exploração de novas tecnologias para aprimorar a experiência do visitante.

O Fantasma na Máquina Fauvista

Contudo, a crítica estética é inevitável. O fauvismo, movimento que Matisse ajudou a fundar, foi revolucionário justamente por se afastar do realismo, celebrando a cor em sua forma pura e em planos chapados. Utilizar uma tecnologia para adicionar profundidade tridimensional e movimento a essas obras parece, para alguns, uma contradição fundamental. O risco é que a intervenção transforme a radicalidade da arte em um artifício tecnológico, um “gimmick” que aliena em vez de conectar.

A tensão no SFMOMA é um microcosmo do dilema que todas as instituições culturais enfrentam na era da IA. Para competir pela atenção do público, devem os museus se tornar mais interativos, quase como parques temáticos? Ou a tecnologia pode ser integrada de forma a servir à história da arte sem banalizá-la? A própria curadora admite que o experimento de expandir as pinturas é “um pouco menos integral à história” da exposição, sugerindo que mesmo para seus idealizadores, há uma linha tênue entre o útil e o acessório.

A ironia final é que Matisse era, ele mesmo, um disruptor. O choque que suas cores causaram em 1905 talvez não seja tão diferente do estranhamento que a IA provoca hoje no ambiente solene de um museu. A questão que permanece em aberto é se essas novas ferramentas digitais estão de fato nos ajudando a ver a arte com outros olhos ou se estão apenas jogando mais uma camada de tinta — brilhante e sintética — sobre a genialidade original.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Technology