Em um setor que luta para manter sua relevância, o Groninger Museum, nos Países Baixos, aposta em uma tese radical: a resposta para o futuro está inscrita em sua própria arquitetura. Roos Gortzak, que assumiu a direção artística da instituição, está reorientando a programação para dialogar diretamente com o icônico e idiossincrático prédio pós-moderno inaugurado em 1994.
Segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen, a estratégia é uma tentativa de “voltar ao futuro”, resgatando o DNA experimental que marcou a fundação do museu. A leitura aqui é que, em vez de tratar o espaço como um contêiner neutro para a arte, Gortzak o utiliza como um manifesto curatorial, um ponto de partida conceitual para definir o que será exibido em suas paredes.
A arquitetura como DNA
O prédio do Groninger Museum é, em si, uma obra de arte colaborativa e disruptiva. Coordenado pelo arquiteto italiano Alessandro Mendini, o projeto foi dividido em três pavilhões conectados, cada um assinado por um nome de peso com ampla liberdade criativa. O resultado é um conjunto deliberadamente caótico e vibrante, com uma torre amarela de Mendini, um cilindro metálico de Philippe Starck e uma estrutura desconstrutivista do escritório Coop Himmelb(l)au.
É dessa pluralidade de vozes que Gortzak extrai os valores que guiarão sua gestão: “experimental”, “interdisciplinar” e “coletivo”. Para a diretora, o design do museu já “grita que ‘sua diferença é bem-vinda aqui’”. Em vez da voz única e autoritária de um curador ou arquiteto, o prédio celebra a colisão de perspectivas. Essa abordagem, segundo ela, dialoga diretamente com os dilemas atuais, onde a busca por conexão em meio à polarização se torna central.
Relevância em tempos de crise
A iniciativa de Gortzak não ocorre no vácuo. Ela reconhece o “momento muito difícil” para os museus, que enfrentam queda no número de visitantes e pressão por financiamento. Apesar de sua arquitetura arrojada, o Groninger nunca alcançou o status de ícone global como o Guggenheim de Bilbao, inaugurado três anos depois. A nova visão curatorial é uma aposta para mudar esse quadro, não pela fama em si, mas pela partilha de valores que a diretora considera essenciais.
A aplicação prática dessa filosofia já está definida. A nova programação terá um foco agudo em arte contemporânea, priorizando a aquisição de obras de artistas mulheres e não-binários, vozes que, segundo Gortzak, estiveram “dolorosamente ausentes da conversa” na história da instituição. A primeira grande exposição sob sua batuta, intitulada “O Arquiteto e a Dona de Casa”, explorará dinâmicas de poder na vida doméstica e o trabalho invisível, um tema que conecta a grande escala da arquitetura com a micropolítica do cotidiano.
O movimento do Groninger é uma resposta sofisticada à pergunta que assombra o mundo da arte: como um museu se mantém relevante? Em vez de buscar respostas em tendências externas ou blockbusters de apelo fácil, a instituição mergulha em sua própria identidade. A aposta é que a coerência entre forma e conteúdo pode gerar uma ressonância mais profunda e duradoura com o público, provando que, às vezes, o caminho mais radical é olhar para dentro.
Source · Dezeen




