A mensagem de um grupo de economistas e especialistas em previdência, reunidos em um fórum da Fenaprevi, foi direta e desprovida de eufemismos: o modelo de aposentadoria pública do Brasil, baseado na repartição simples, está esgotado. A combinação de uma queda acelerada na taxa de natalidade com o aumento da expectativa de vida tornou a estrutura do INSS, na qual trabalhadores ativos financiam os benefícios dos inativos, matematicamente insustentável.

O diagnóstico, detalhado em reportagem do InfoMoney, aponta para uma ruptura fundamental no contrato social entre gerações. Não se trata mais de debater ajustes pontuais, como idade mínima ou alíquotas. A tese que ganha corpo é a de que a responsabilidade pela segurança financeira na velhice está sendo transferida, de forma irrevogável, do Estado para o indivíduo. Para os mais jovens, a aposentadoria deixa de ser um direito garantido para se tornar um projeto a ser construído desde o primeiro emprego.

A matemática de um colapso anunciado

Os números que sustentam o alerta são contundentes. Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), apontou que a proporção de contribuintes por aposentado no Brasil despencou de quatro para um em 1980 para os atuais 1,8 para um. A projeção é que o indicador atinja o nível crítico de 1,5 para um já em 2032. Ao mesmo tempo, a sobrevida média após os 60 anos aumentou em seis anos, elevando o custo total de cada benefício em cerca de 40%.

Essa pressão demográfica se traduz em um fardo fiscal pesado. Segundo a economista Ana Paula Vescovi, o sistema público de previdência custa ao país cerca de R$ 1 trilhão por ano, com um déficit estrutural que consome entre 3,5% e 4% do PIB. O rombo, além de limitar a capacidade de investimento do Estado, expõe uma profunda desigualdade. Enquanto o déficit por pessoa no regime geral (INSS) é de R$ 9 mil, o número salta para R$ 70 mil no funcionalismo público civil e chega a R$ 270 mil entre os servidores do Distrito Federal.

O fim do pacto e o imperativo individual

Diante deste cenário, os especialistas argumentam que novas reformas nos moldes tradicionais são insuficientes. “O Brasil não precisa de uma reforma, precisa de uma nova previdência”, afirmou Devanir Silva, da Abrapp, ecoando o sentimento de que a solução não virá mais do Estado. A alternativa defendida é o fortalecimento da previdência privada por capitalização, na qual cada trabalhador poupa para si mesmo. Para o economista Eduardo Giannetti, o papel do governo deve se limitar a uma rede básica de proteção contra a pobreza, mas o conforto na aposentadoria dependerá da disciplina de poupança de cada um.

Essa transição exige um choque de realidade, especialmente para quem está entrando no mercado de trabalho. A fala de Dyogo Oliveira, da CNseg, é emblemática: “Temos que ser honestos com eles e dizer: ‘Você não vai se aposentar nos moldes atuais’. Tenha clareza disso, porque o sistema atual está falido.” A mensagem é que a dependência do sistema público é uma aposta perdida. A única estratégia viável é começar a construir patrimônio individual o mais cedo possível, transformando a previdência privada de alternativa em necessidade.

O fim do pacto intergeracional, como definiu Nilton Molina, do Instituto de Longevidade MAG, é um fato consumado. A pirâmide se inverteu: hoje, poucos jovens contribuem para uma base crescente de idosos. A ampliação da previdência complementar, que já administra mais de R$ 2 trilhões no país, é vista como o único caminho para garantir não apenas a segurança financeira individual, mas também uma fonte crucial de capital de longo prazo para o desenvolvimento da economia brasileira. O desafio, agora, é comunicar essa nova realidade sem gerar pânico, mas com a urgência que os números impõem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney