A legitimidade da democracia liberal no Ocidente se apoiou, por décadas, em uma promessa simples: o crescimento econômico geraria prosperidade compartilhada. Para Daron Acemoglu, economista do MIT e um dos pensadores mais influentes da atualidade, essa fórmula não apenas se esgotou, mas foi ativamente rompida pela revolução digital. O resultado é a crise política que hoje consome as democracias ocidentais, marcada pela polarização e pelo avanço de narrativas populistas.
Em uma longa análise no podcast Persuasion, Acemoglu argumenta que a democracia liberal se tornou, em parte, vítima de seu próprio sucesso e, principalmente, de sua incapacidade de se adaptar à era pós-industrial. A transição tecnológica, liderada pela automação e agora pela inteligência artificial, quebrou o elo fundamental entre a expansão dos negócios e a valorização do trabalho. Essa fratura não é apenas econômica; ela redesenhou o mapa político e cultural, criando as condições para o ressentimento que hoje define o debate público.
A prosperidade que não é mais compartilhada
O sucesso do modelo liberal no pós-guerra, especialmente entre os anos 1940 e 1970, dependia de uma dinâmica clara: para crescer, as empresas precisavam de mais trabalhadores. A competição por mão de obra, em um ambiente com sindicatos fortes e regulação estatal, forçava a alta dos salários e a criação de empregos. A prosperidade era, de fato, compartilhada, pois o crescimento da produtividade se traduzia em melhores condições de vida para a maioria da população. Essa foi a base material que sustentou o consenso democrático.
Segundo Acemoglu, a era digital implodiu essa lógica. A automação permitiu que as empresas expandissem a produção e os lucros sem necessariamente contratar mais pessoas — e, em muitos casos, demitindo. O crescimento se descolou da geração de empregos e do aumento de salários para a mão de obra menos qualificada. O economista aponta o período entre 1980 e 2015 como o epicentro dessa transformação. Durante essas décadas, a desigualdade disparou: enquanto os salários reais de trabalhadores com diploma universitário subiram, os daqueles com ensino médio ou menos estagnaram ou caíram. A participação na força de trabalho desse segundo grupo também diminuiu, com muitos simplesmente desistindo de procurar emprego.
Do ressentimento econômico à guerra cultural
Essa divergência econômica teve consequências políticas profundas. A ascensão da economia do conhecimento criou uma nova classe profissional, com alta escolaridade, concentrada em grandes centros urbanos e com valores cosmopolitas. Essa elite, argumenta Acemoglu, tornou-se a força dominante nos partidos de centro-esquerda, como o Partido Democrata nos EUA e seus equivalentes na Europa. A agenda política dessas legendas, que antes eram porta-vozes da classe trabalhadora, mudou. As pautas tradicionais, como o fortalecimento de sindicatos e programas de emprego, foram substituídas por prioridades da nova elite educada, como o cancelamento de dívidas estudantis.
Mais do que isso, essa nova classe dominante passou a promover o que Acemoglu chama de uma “agenda de engenharia social”, tentando impor seus valores culturais ao restante da sociedade. Essa postura, combinada com um desinteresse visível pela situação econômica dos trabalhadores menos qualificados, gerou uma forte reação. O ressentimento não era mais apenas econômico, mas também cultural. A classe trabalhadora, sentindo-se abandonada pela esquerda e desprezada culturalmente, tornou-se um terreno fértil para a direita populista, que soube explorar essa sensação de perda de status e de voz.
A fratura, portanto, é dupla. De um lado, o colapso do mecanismo de prosperidade compartilhada. Do outro, o realinhamento político que deixou a classe trabalhadora órfã de representação. Para Acemoglu, a reconstrução da democracia liberal passa por endereçar as duas frentes. Exige uma nova filosofia de governança, capaz de formar amplas coalizões — como a que Franklin D. Roosevelt montou nos EUA — e, crucialmente, de redirecionar o desenvolvimento tecnológico. A questão não é frear a inovação, mas garantir que ela sirva para criar bons empregos e fortalecer a sociedade, em vez de apenas maximizar lucros e aprofundar divisões.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





