O sonho da casa própria, frequentemente visto como o ápice do sucesso financeiro, encontra uma realidade contraintuitiva nos dados globais. As nações com as maiores taxas de propriedade de imóveis não são as mais ricas, mas sim aquelas com um passado comunista recente. Eslováquia (93,5%), Romênia (92,8%) e China (90%) lideram um ranking onde potências como Alemanha (41%) e Suíça (38,2%) ocupam as últimas posições.
O levantamento, baseado em dados da OCDE e de estudos acadêmicos, sugere que a posse de um imóvel é menos um termômetro de prosperidade atual e mais um reflexo de políticas habitacionais históricas. A narrativa de que o capitalismo inevitavelmente leva à casa própria é, na prática, invertida: foi a transição do socialismo que criou a maior onda de proprietários do mundo.
O legado da privatização
O domínio de países do Leste Europeu no topo da lista não é coincidência. É o legado direto de sistemas socialistas onde o Estado era o único senhorio. Com a queda do comunismo nos anos 90, milhões de imóveis estatais foram privatizados e vendidos a preços altamente subsidiados para seus ocupantes. O mesmo fenômeno ocorreu na China com as reformas habitacionais da mesma década.
Essa transição criou, quase por decreto, uma nação de proprietários. Não foi um processo orgânico de acumulação de riqueza via mercado, mas uma transferência de ativos em massa que reconfigurou a estrutura de posse da noite para o dia. Para muitas famílias, o imóvel se tornou o principal, e por vezes único, ativo de grande valor.
A opção pelo aluguel
Na outra ponta, a baixa taxa de propriedade em países como Alemanha e Suíça não indica dificuldade de acesso, mas uma estrutura de mercado diferente. Nesses países, o mercado de aluguel é robusto, com forte proteção aos inquilinos e estabilidade de preços, tornando o arrendamento uma opção viável e financeiramente inteligente a longo prazo.
A cultura de alugar não carrega o estigma de instabilidade financeira que possui em mercados como o americano (65,3% de proprietários) ou, em certa medida, o brasileiro. A decisão de comprar ou alugar torna-se uma escolha de portfólio, não uma necessidade existencial. A riqueza não é imobilizada em tijolos, permitindo outras formas de investimento.
O mapa da casa própria, portanto, é menos sobre a riqueza de uma nação e mais sobre sua história política e a maturidade de seu mercado de aluguel. A obsessão pela propriedade pode ser mais um artefato cultural do que uma verdade econômica universal.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Visual Capitalist

