O primeiro encontro com um cavalo pode ser uma experiência de deslocamento absoluto. Para a escritora Missouri Williams, essa revelação aconteceu em um estábulo, onde a presença de um animal idoso, banguela e pesado forçou um confronto imediato entre a imagem idealizada do equino — aquela que galopa pelas páginas da literatura — e a criatura física, que respira ruidosamente, atrai moscas e consome fortunas mensais. É uma tensão que ecoa através dos séculos, desde as comédias de Aristófanes até a melancolia russa de Turguêniev, onde o animal deixa de ser apenas um ser vivo para se tornar um repositório de nossas ansiedades, projeções financeiras e dúvidas existenciais.

A armadilha do pensamento simbólico

Na comédia As Nuvens, escrita em 423 a.C., Aristófanes estabelece um contraste que perdura: o mundo terrestre dos cavalos, associado à paixão física e ao custo material, versus o mundo etéreo das ideias, onde o filósofo Sócrates paira em uma cesta, buscando nos céus a lógica para escapar dos credores. A tragédia do filho Pheidippides, que abandona sua paixão pelos cavalos para se tornar um raciocinador cínico, é um lembrete de que, ao tentarmos racionalizar o mundo, corremos o risco de esvaziar a nossa própria humanidade. O autor sugere que, para o pai Strepsiades, um filho que não ama cavalos é um filho que não ama nada, evidenciando como nossas afeições, por mais irracionais que pareçam, são a âncora que nos mantém conectados à realidade tangível.

A tragédia do ceticismo

Em O Fim de Chertopkhanov, de Turguêniev, a relação com o animal atinge um ponto de ruptura psicológica profunda. Chertopkhanov, um aristocrata arruinado, encontra no cavalo Malek Adel não apenas um animal de estimação, mas um espelho de sua própria dignidade restaurada. No entanto, a tragédia não reside na perda do cavalo, mas em seu retorno. Ao ser confrontado com a possibilidade de que aquele animal não seja o mesmo que ele amou, Chertopkhanov mergulha em um ciclo de dúvida obsessiva que o leva à destruição. É o que poderíamos chamar de tragédia do ceticismo: a incapacidade de aceitar a realidade como ela se apresenta, exigindo que o objeto de nosso afeto se submeta a um padrão de certeza que ele, por natureza, nunca poderá satisfazer.

A fotografia e a neutralidade do real

O filósofo Stanley Cavell argumentava que a fotografia possui a capacidade única de nivelar hierarquias, removendo o ser humano do centro do palco e permitindo que objetos e animais existam em sua própria ontologia. Quando olhamos para uma imagem que captura um cavalo em um momento de desatenção, o animal deixa de ser um símbolo ou um suporte para nossas metáforas e passa a ser, simplesmente, um ser no mundo. Essa percepção é um antídoto necessário contra a violência que exercemos sobre o que nos cerca quando tentamos, a todo custo, decifrar significados ocultos em fatos que poderiam ser apenas o que são.

A materialidade como amuleto

No fim, a busca por segurança diante de um mundo imprevisível — como o nascimento de um filho — nos leva de volta ao objeto físico. Uma ferradura gasta, corroída pelo tempo e pela ferrugem, torna-se mais do que um símbolo de sorte; ela é, acima de tudo, matéria. Ao segurar esse pedaço de metal, desprovido de qualquer glamour estético, somos forçados a reconhecer que, na ausência de respostas metafísicas, a solidez do mundo material é o único refúgio que realmente possuímos. Talvez a verdadeira sabedoria resida em deixar que as coisas sejam, por um momento, apenas o que são, sem a necessidade de que carreguem o peso de nossas interpretações.

É possível, afinal, encontrar a paz ao olhar para um cavalo e ver apenas um cavalo, ou a nossa natureza nos condenará eternamente a procurar sombras em cada galope? Com reportagem de Brazil Valley

Source · Paris Review Blog