Longe do Salão Oval, o ex-presidente George W. Bush agora se debruça sobre a tela em branco. O tema: o dia que definiu sua presidência e uma era. Para marcar o 25º aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001, Bush revelou uma nova série de pinturas, em exibição em seu centro presidencial em Dallas. As obras retratam bandeiras, o luto e o próprio presidente discursando a uma nação em choque.

O objetivo declarado é refletir sobre “a coragem, o sacrifício e a resiliência” do povo americano. A tese que emerge, no entanto, é a de uma curadoria da memória. Segundo reportagem da ARTnews, as telas evitam cuidadosamente as consequências mais controversas daquele dia, como a “Guerra ao Terror” e as críticas sobre um quarto de século de políticas questionáveis que se seguiram.

O presidente como artista

Bush, que não possui formação artística tradicional, não é um novato nos pincéis. Suas incursões anteriores, incluindo autorretratos, chegaram a receber uma defesa inesperada de críticos como Jerry Saltz. Agora, ao pintar o 11 de setembro, ele se posiciona não apenas como protagonista histórico, mas como seu cronista visual. É um movimento que busca controlar a narrativa, transformando trauma em uma história de superação.

O ato de pintar se torna, assim, uma ferramenta de legado. A seleção dos temas — a bravura dos bombeiros, a união nacional — é tão significativa quanto a omissão de outros. Não há nas telas o Iraque, o Afeganistão ou Guantánamo. A arte serve como um filtro, apresentando uma versão da história que é, ao mesmo tempo, pessoal e profundamente política, focada na redenção e não no acerto de contas.

A moldura da história

Curiosamente, a exposição coincide com declarações recentes de Bush condenando a islamofobia que se seguiu aos ataques. Seis dias após o 11 de setembro, ele visitou um centro islâmico para defender a liberdade religiosa, um gesto que ele reafirmou agora. Há uma tensão evidente entre esse discurso e o legado de políticas que, para muitos, estigmatizaram populações inteiras.

As pinturas, portanto, funcionam como um diário público e seletivo. Elas não representam o evento em si — as torres caindo, o Pentágono em chamas —, mas sim a reação idealizada a ele. Ao escolher o que imortalizar na tela, Bush não está apenas pintando o passado; está tentando enquadrar como ele deve ser lembrado pelas futuras gerações.

A questão que as telas levantam não é sobre o que foi pintado, mas sobre tudo aquilo que, deliberadamente ou não, permaneceu do lado de fora da moldura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews