A avaliação de um dos maiores empresários do agronegócio brasileiro soou como um alerta direto. Para Blairo Maggi, acionista do Grupo Amaggi e ex-ministro da Agricultura, a gestão de Jair Bolsonaro cometeu um erro estratégico ao confrontar a China em uma tentativa de alinhamento com os Estados Unidos. A crítica, feita durante um evento do Bradesco BBI em São Paulo, expõe a tensão entre a diplomacia ideológica e a realidade comercial de um setor que depende de Pequim.

Segundo reportagem do Money Times, Maggi defende que a posição correta para o Brasil é a de isenção pragmática na disputa entre as duas maiores potências globais. A análise do "Rei da Soja" não é apenas uma crítica política póstuma; é um diagnóstico sobre a vulnerabilidade do principal motor da economia brasileira. A tese é clara: ao tomar partido, o Brasil arrisca seu status de fornecedor confiável e abre espaço para concorrentes, colocando em xeque décadas de construção de mercado.

Pragmatismo como sobrevivência

A visão de Maggi reflete a lógica que rege as tradings de commodities: o que importa é o fluxo comercial, não a afinidade política. "Vocês brigam lá, brigam aqui e deixam a gente vender no meio", resumiu o empresário, defendendo uma postura estritamente comercial. Para o agronegócio, a China não é um adversário ideológico, mas o principal cliente. Qualquer movimento que ameace essa relação é visto como um risco existencial.

Essa preocupação não é nova. Maggi relatou que, mesmo há quase uma década, durante suas oito viagens à China como ministro, a questão sobre o posicionamento do Brasil na polarização sino-americana já era levantada por autoridades locais. A busca chinesa por segurança alimentar é, antes de tudo, uma busca por estabilidade social interna. Um fornecedor que se mostra politicamente volátil se torna, por definição, não confiável, o que acelera a procura de Pequim por alternativas. Este é o "grande perigo" e o "sinal amarelo" que Maggi aponta para o setor.

A dependência da soja e o jogo de longo prazo

Apesar do alerta, o cenário não é de desespero. Maggi reconhece que a China, embora busque autossuficiência em setores como aves e suínos, possui um calcanhar de Aquiles: a proteína vegetal. O país não tem terras agricultáveis suficientes para produzir a soja necessária para alimentar seus rebanhos, sendo mais econômico importá-la do Brasil. "Para fazer a proteína animal, eles vão precisar da proteína vegetal. E é aí que está onde o Brasil está pendurado nesse negócio", afirmou.

Essa dependência mútua, contudo, não é um cheque em branco. A oportunidade brasileira reside em manter-se como um parceiro comercial estável e previsível, enquanto busca, em paralelo, a diversificação de mercados. Maggi alertou ainda para o uso de barreiras sanitárias e ambientais como protecionismo disfarçado por parte de outros países, o que exige uma atuação coordenada e técnica do Brasil. A mensagem final é que o sucesso passado não garante o futuro; o jogo global ficou mais complexo e exige uma diplomacia que sirva aos interesses econômicos do país, e não o contrário.

A posição de Maggi, vinda do coração do establishment do agronegócio, é um contraponto poderoso a qualquer política externa guiada por alinhamentos automáticos. Ao classificar Donald Trump como "doidão" e "imprevisível", ele apenas reforça seu argumento central: em um mundo de gigantes instáveis, a melhor aposta para o Brasil é a neutralidade pragmática.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times