Em abril de 2013, aos 76 anos, o Rei Harald V da Noruega trocou o palácio por uma rede na Amazônia. Por quatro dias, viveu na comunidade Yanomami de Demini, perto da fronteira com a Venezuela. Comeu caça com beiju, ouviu os anciãos e conversou com o líder Davi Kopenawa sobre o futuro da floresta. Não era uma visita de Estado, mas a realização de um sonho de infância.

Segundo a Casa Real norueguesa, ele foi o primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar o território Yanomami. O gesto, pouco conhecido, talvez seja o que melhor revela o homem por trás da coroa: curioso, disposto a ouvir e a cruzar as distâncias simbólicas que separam o poder dos que vivem longe dele. A morte de Harald, aos 89 anos, encerra um reinado de 35 anos que modernizou a monarquia sem perder o senso de continuidade, mas para o Brasil, significa a perda de um amigo improvável.

Uma afinidade de décadas

A relação de Harald com o Brasil era antiga e pessoal, muito anterior à sua imersão amazônica. Ainda como príncipe herdeiro, visitou o país em 1964. Quatro anos depois, escolheu o Rio de Janeiro como destino de sua lua de mel com a Rainha Sonja. Havia também um laço familiar: sua irmã, a Princesa Ragnhild, viveu por décadas no Brasil com o marido, o empresário norueguês Erling Lorentzen, fundador da Aracruz Celulose.

Quando retornou em visita de Estado em 2003, o rei falou no Copacabana Palace sobre o carinho especial pelo Rio. Mas a visita foi mais do que cerimonial. A comitiva de 150 pessoas, a maior do tipo na época, selou afinidades entre duas nações com extensas costas, vocação marítima e expertise em exploração de petróleo offshore. A afeição pessoal pavimentava uma parceria estratégica.

Do afeto à parceria estratégica

Essa parceria floresceu para muito além da troca de bacalhau por café que marcou o início das relações comerciais em 1842. Hoje, mais de 230 empresas norueguesas operam no Brasil, o mercado de investimentos mais importante para o país escandinavo fora da Europa e dos Estados Unidos. Energia, naval, tecnologia e transição verde formam uma agenda bilateral densa e sofisticada.

Foi na Amazônia, contudo, que a relação ganhou sua dimensão mais profunda. Desde 2008, a Noruega se tornou a principal doadora do Fundo Amazônia, com aportes que superam R$ 3,8 bilhões. O mecanismo, gerido pelo BNDES, atrelou o apoio financeiro a resultados na redução do desmatamento. Ao passar quatro dias com os Yanomami, Harald deu um rosto humano aos valores que seu país projetava no mundo, conectando a política externa à dignidade humana.

Num mundo governado por resultados trimestrais e pelo ciclo eleitoral, Harald encarnou a força da continuidade. Como monarca constitucional, ele não governava, mas suas escolhas de onde e com quem gastar seu tempo comunicavam as prioridades de uma nação. Ele entendia que confiança se constrói em décadas. A Noruega perdeu seu rei. O Brasil, um amigo raro que compreendeu que as alianças mais consequentes não são forjadas para retornos imediatos, mas para resistir à passagem do tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech