Oito em cada dez empresas na Espanha reconhecem não ter atingido um nível “ótimo” de digitalização. No epicentro dessa defasagem está a área de Recursos Humanos, onde apenas 37% das companhias utilizam Inteligência Artificial em seus processos. Os dados são do primeiro Barômetro da Digitalização de RH na Espanha, conduzido pela consultoria Auria HR e reportado pela Forbes local.
O estudo revela um retrato que, embora espanhol, ecoa em muitos mercados, incluindo o brasileiro: a digitalização avança em duas velocidades distintas. Enquanto ferramentas para automatizar tarefas operacionais são adotadas, a tecnologia como alavanca para decisões estratégicas de gestão de pessoas ainda é incipiente.
A digitalização de duas velocidades
A pesquisa aponta que a automação de processos já é uma realidade em muitas empresas, mas o salto para uma gestão analítica ainda é um desafio. Apenas 17,8% dos departamentos de RH afirmam tomar decisões baseadas integralmente em dados e análises. A IA, quando presente, concentra-se em áreas de retorno imediato, como recrutamento e seleção, mas sua integração estruturada é rara.
Esse descompasso é crítico em um cenário de alta rotatividade e escassez de talentos. Como aponta Ángel Pidal, fundador da Auria HR, o desafio é estender a digitalização para processos que permitam “gerir melhor o talento, antecipar-se às suas necessidades e melhorar a experiência dos funcionários”. A tecnologia, neste caso, deixa de ser sobre eficiência operacional e passa a ser sobre retenção e competitividade.
O paradoxo do tempo
O principal obstáculo para essa evolução, surpreendentemente, não é o orçamento. Segundo o levantamento, a falta de tempo é o maior freio para 47,3% dos entrevistados. O dado revela uma armadilha circular: as equipes não têm tempo para implementar as ferramentas que, justamente, lhes dariam mais tempo para focar em atividades estratégicas.
“Precisamos digitalizar precisamente para liberar tempo das tarefas operativas”, afirmou Carla Segovia, diretora de operações da Auria HR. A percepção da tecnologia como uma carga adicional, e não como uma solução, parece ser o nó górdio. A chave, segundo ela, é que a simplificação dos processos seja o benefício imediato e palpável da adoção.
O barômetro espanhol sugere que a jornada da digitalização do RH é menos sobre comprar software e mais sobre redesenhar a própria função da área. Sair do ciclo de urgências operacionais para se tornar um parceiro estratégico que usa dados para entender e cultivar pessoas é o verdadeiro desafio. A tecnologia é o meio, mas a mudança é cultural.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





