O inverno de 2023, em uma exposição de arte sonora em Berlim, marcou a descoberta de uma música que para muitos seria o limiar da loucura, mas que para mim se revelou perfeita para o ato de escrever. Em vez de quadros, fones de ouvido cobriam as paredes. Entre sons vanguardistas, as composições minimalistas de Arnold Dreyblatt e Charlemagne Palestine, com suas poucas notas repetidas em harmonia consonante, criaram uma atmosfera única. A repetição hipnótica, que para alguns soa como "o que deve ser enlouquecer", para outros, como eu, abre as portas para um estado de concentração profunda.

A Busca Ancestral pela Repetição

A relação entre música e a mente criativa não é nova. Ao longo da história, padrões cíclicos têm sido empregados em rituais religiosos e práticas meditativas para transcender o ego e acessar estados mais profundos de consciência. Seja no giro dos dervixes sufi, na circumambulação de monges budistas ou na repetição de orações católicas com o rosário, a repetição funciona como um portal. James Baldwin, em sua busca por inspiração para "Go Tell It on the Mountain", isolou-se nos Alpes Suíços com um único álbum de Bessie Smith, tocado incessantemente. Ele descreveu como a cadência da cantora o ajudou a reconectar-se com sua própria voz.

Diversidade de Estilos, Unidade na Função

As preferências musicais dos escritores são tão diversas quanto suas obras. Lincoln Michel, autor de "Metallic Realms", encontra utilidade na duração de "Dopesmoker", do Sleep, um hino do stoner metal com 64 minutos, definindo metas diárias de escrita com base em sua duração. Em contraste, a renomada Joan Didion buscava o silêncio absoluto, temendo que "o ritmo de fala de outra pessoa" pudesse interferir em seu próprio "sonho" narrativo. Jonathan Franzen, por sua vez, opta por um quarto escuro, protetores auriculares e ruído rosa para abafar qualquer distração sonora. Ainda assim, muitos escritores se adaptam a faixas instrumentais, enquanto outros, como Veronica Roth, autora de "Seek the Traitor’s Son", não se importam com letras, buscando a música que melhor se alinha ao "humor" do livro e da cena específica.

O Transe Criativo: Foco e Fluxo

A experiência de Roth de buscar o "humor certo" se desdobra em duas fases: a música para pensar sobre escrever e a música para escrever de fato. Na primeira, as escolhas são mais soltas, focadas em imergir no universo da história, usando idiomas estrangeiros ou artistas como Kate Bush para evocar atmosferas góticas. Na segunda, quando o foco é a concentração, a música precisa ser complexa o suficiente para prender pensamentos ansiosos, mas não a ponto de distrair. Jazz, com sua energia vibrante, é frequentemente citado. Contudo, o elemento unificador parece ser a repetição, independentemente do gênero, que induz a um estado de transe criativo. Trilhas sonoras de filmes e, cada vez mais, de videogames, com suas melodias compostas para acompanhar narrativas, tornam-se aliadas naturais. Philip Glass, com seus ritmos incessantes, é um nome recorrente, citado por escritores como Brandon Taylor e Marian Mitchell Donahue como catalisador para o "estado de fluxo".

A Alma na Página

A busca por essa repetição hipnótica, seja nas composições obsessivas de Dreyblatt e Palestine ou nos ritmos de Glass, é um anseio por uma meditação cíclica, um estado de imaginação constante. Essa imersão, essa entrega a um tipo de "loucura criativa", permite que o escritor transcenda o eu cotidiano e infunda um pouco de sua alma na obra. A pergunta que permanece é: até que ponto essa simbiose musical é essencial para a criação de um trabalho que ressoe e perdure? A música, em sua capacidade de moldar o estado mental, não é apenas um pano de fundo, mas uma ferramenta fundamental na alquimia da escrita.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub