Um ecossistema marinho pouco estudado no Mar Mediterrâneo revelou-se um surpreendente e longevo sumidouro de carbono. Leitos de rodolitos — algas vermelhas calcárias de crescimento lento — no Canal de Menorca, na Espanha, vêm armazenando carbono orgânico há mais de 6.000 anos. A descoberta, fruto de um estudo liderado pelo Instituto Mediterrâneo de Estudos Avançados (Imedea), lança nova luz sobre o papel desses habitats na regulação climática.

A pesquisa, cujos detalhes foram reportados pela Forbes España, documenta a capacidade de um ecossistema específico de funcionar como um arquivo geológico e climático. A análise sugere que, embora ecossistemas de "carbono azul", como manguezais e prados marinhos, recebam mais atenção, outros habitats marinhos podem ter um papel igualmente crucial e subestimado nas estratégias de mitigação das mudanças climáticas.

Um arquivo geológico vivo

Para chegar a essa conclusão, a equipe científica combinou cartografia geofísica de alta precisão, extração de testemunhos de sedimento e datação por radiocarbono em uma área de 43,6 quilômetros quadrados. Os resultados mostram que, embora o depósito sedimentar tenha começado a se formar há cerca de 10.000 anos, os leitos de rodolitos se estabeleceram de forma densa há cerca de 6.000 a 7.000 anos, coincidindo com a estabilização do nível do mar no Holoceno.

A capacidade de armazenamento é notável: os primeiros 50 centímetros de sedimento guardam, em média, 32 toneladas de carbono por hectare. Segundo o estudo, a estrutura tridimensional criada pelas algas favorece a retenção de partículas orgânicas, que são preservadas nos depósitos de sedimentos carbonatados. A estabilidade desse estoque ao longo de seis milênios indica uma notável capacidade de conservação a longo prazo.

A fragilidade do 'carbono azul'

O estudo, no entanto, carrega um alerta implícito. A mesma estrutura que torna esses leitos de rodolitos eficientes na captura de carbono também os torna vulneráveis. Os pesquisadores sublinham a ameaça representada por perturbações físicas, como a pesca de arrasto de fundo e a dragagem, que podem destruir em instantes depósitos sedimentares formados ao longo de milênios, potencialmente liberando o carbono armazenado e aniquilando o habitat.

A descoberta reforça a necessidade de incluir esses ecossistemas nas estratégias de conservação marinha. Mais do que apenas hotspots de biodiversidade, os leitos de rodolitos do Canal de Menorca são "autênticos arquivos sedimentares", cuja contribuição para o balanço de carbono global apenas começa a ser compreendida. A questão que emerge não é apenas científica, mas de governança: como proteger esses reservatórios naturais antes que seja tarde demais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España