Em um espaço em Seul, um círculo de grãos de cevada maltada cobre o chão. Quatro performers movem-se em gestos contínuos e coreografados, varrendo e remodelando o material ao som de uma paisagem sonora gravada dentro de uma destilaria na Escócia. A cena, parte da feira de arte Frieze Seoul, não é apenas uma performance; é a tradução do trabalho manual de virar os grãos em um piso de malte tradicional em arte cinética.
A obra é uma criação do artista americano Daniel Arsham para a destilaria The Balvenie. A colaboração celebra o lançamento da “The 1931 Collection”, uma série ancorada em um uísque envelhecido por 88 anos. A performance ao vivo, concebida por Arsham, serve como um portal sensorial para o universo da marca, conectando o gesto do trabalho à passagem do tempo — tema central na obra do artista.
Esculpindo a Passagem
Conhecido por sua “arqueologia ficcional”, Arsham explora a transformação de materiais e as histórias que os objetos carregam. A parceria com The Balvenie parece, portanto, uma extensão natural de sua prática. “Eu queria criar algo que parecesse ao mesmo tempo antigo e contemporâneo, para tornar a passagem do tempo tangível”, explica o artista. A instalação não se limita à performance. Ela dá contexto a uma relíquia: um uísque destilado em 1931, mesmo ano em que a destilaria inaugurou seu piso de malte, que segue em operação.
A proposta de Arsham é tratar o processo de maturação de décadas como uma transformação física, quase geológica. A arte aqui não apenas decora, mas busca dar forma a um conceito abstrato — o envelhecimento. É uma estratégia que eleva o produto de um bem de consumo de luxo a um artefato cultural, imbuído de uma narrativa que transcende seu valor monetário.
Um Vaso para Oito Décadas
O ponto focal da coleção é a escultura que abriga o single malt de 88 anos. A peça é um vaso dividido, feito de materiais industriais e naturais contrastantes. A frente é composta por oito camadas fluidas de bronze patinado à mão, cada uma representando uma década de envelhecimento, com uma textura que emula a oxidação verde do cobre dos alambiques da destilaria. A parte traseira é formada por 88 seções de carvalho, uma para cada ano de maturação.
No coração da escultura, um disco de cobre recuperado de um alambique desativado protege um decantador de cristal soprado à mão. O objeto é uma obra em si, um relicário que encapsula o líquido precioso. A complexidade da peça reflete a raridade do conteúdo, transformando a garrafa em um pedestal e o ato de beber em uma experiência quase ritualística.
A instalação, que viajará para Nova York, Xangai e Taipei, levanta uma questão pertinente sobre o mercado de luxo contemporâneo. Onde termina a arte e começa o branding? Ao transformar a herança de uma marca em uma experiência imersiva e esteticamente sofisticada, Arsham e The Balvenie sugerem que, no topo da pirâmide do consumo, talvez não haja mais distinção.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





