Em uma nova fronteira da guerra de narrativas, o governo de Israel está financiando um 'think tank sintético' para influenciar as respostas geradas por inteligência artificial. O Hanover Institute for Public Policy, lançado há menos de um mês, já publicou mais de uma centena de artigos sobre o conflito com a Palestina e antissemitismo, segundo reportagem do site 404 Media.

A operação é conduzida pela Piro Inc., uma agência de publicidade americana, e os artigos são quase inteiramente escritos por IA, com o objetivo explícito de serem 'lidos' por outros modelos de linguagem. A iniciativa inaugura uma era de 'AI Story Optimization', uma forma sofisticada de propaganda que não visa mais apenas o leitor humano, mas a máquina que o informa.

A Otimização da Narrativa para IAs

A estratégia da Piro, a agência por trás do projeto, não é secreta — é um serviço vendido abertamente como 'AI Story Optimization'. Em uma publicação no LinkedIn, o cofundador Daniel Rosenberg foi direto: “Se os modelos não entendem sua história, eles contarão a de outra pessoa”. O objetivo é fortalecer os sinais que moldam como a IA entende e explica uma narrativa. O site do Hanover Institute possui até mesmo um arquivo llms.txt, um guia para facilitar o rastreamento do conteúdo pelos robôs de empresas como OpenAI e Google.

Os artigos em si parecem projetados para o consumo de máquinas. Com títulos em formato de pergunta, como "Quanta terra palestina Israel tomou?", o conteúdo é frequentemente vago e circular, descrito pela reportagem original como "salada de palavras sem sentido". Uma análise da ferramenta de detecção Pangram concluiu que os textos são integralmente gerados por IA, com apenas a bibliografia sendo adicionada por humanos. A tática não é convencer com argumentos, mas inundar o ecossistema de dados com conteúdo que pareça superficialmente crível para um algoritmo.

Geopolítica como SEO

A operação é um ato de estado, não uma iniciativa privada. Documentos do Foreign Agents Registration Act (FARA) nos EUA, onde a Piro está registrada, mostram que a agência trabalha para a LaPam, a agência de publicidade oficial de Israel. Faturas revelam pagamentos que somam US$ 1 milhão da agência de publicidade HAVAS para a Piro para desenvolver o projeto, que inclui “pesquisa de audiência, arquitetura de conteúdo, produção de ativos e planejamento de distribuição”.

O movimento sinaliza uma evolução na desinformação. Se a primeira onda da guerra informacional digital focava em manipular redes sociais para influenciar o público, a nova fase mira a infraestrutura de conhecimento da própria inteligência artificial. O precedente é perigoso: o que impede que qualquer nação, corporação ou grupo de interesse crie seu próprio 'think tank sintético' para poluir o poço de informações do qual as IAs bebem? A linha entre Search Engine Optimization (SEO) e propaganda de estado torna-se indistinguível.

Enquanto o site do Hanover Institute tenta justificar a iniciativa com uma história pessoal ligada a um sobrevivente do Holocausto, a mecânica da operação é mais fria e calculista. Críticos ouvidos pela 404 Media a classificam como uma “máquina de desinformação e propaganda”. A disputa não é mais apenas pela atenção do público, mas pelo controle dos algoritmos que, cada vez mais, mediam a percepção da realidade. A questão deixa de ser quem vence o debate para se tornar quem treina o juiz.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media