No coração da Flórida, um oásis de arquitetura modernista abriga uma joia rara: o único planetário concebido pelo visionário Frank Lloyd Wright. Aninhado no campus da Florida Southern College, este edifício, conhecido simplesmente como o Planetário, passou por uma restauração meticulosa que o devolveu ao seu esplendor original. O projeto, parte de um esforço contínuo de décadas para preservar o legado arquitetônico de Wright no campus — o único planejado por ele em sua totalidade —, não foi apenas uma reforma, mas um ato de arqueologia arquitetônica, desvendando camadas de intervenções posteriores para resgatar a visão pura do arquiteto.

A jornada para reviver o Planetário começou com um objetivo claro: reacender a centelha de admiração que Wright pretendia evocar. Jeff Baker, arquiteto residente do campus e principal da MCWB Architects, liderou o esforço. Com duas décadas dedicadas aos projetos de Wright na FSC, Baker via o Planetário como um desafio especial. "Desde o início desses esforços gerais de restauração, a faculdade sempre buscou uma oportunidade para restaurar o Planetário, sabendo bem de seu potencial para empolgar e inspirar públicos de todas as idades ao vislumbrar os céus e o grande gênio de Frank Lloyd Wright", disse Baker. A ambição era clara: não apenas consertar, mas reanimar a experiência que Wright imaginou.

A Visão de Wright Revelada

A restauração, que começou com o exterior em 2021, envolveu a substituição do telhado, reparos em rufos e a recuperação de partes da fachada onde o estuque havia falhado. Mais de 280 ladrilhos "têxteis" feitos à mão, que adornam o perímetro do edifício, foram cuidadosamente restaurados ou substituídos. No entanto, foi no interior, a partir de 2023, que a verdadeira complexidade do trabalho se manifestou. "Décadas de intervenções desde a morte de Wright haviam alterado dramaticamente o cômodo", observou Baker. A equipe se dedicou a remover adições posteriores, como um antigo armário de computadores dos anos 80, que obscureciam a estrutura original. Essa remoção foi crucial para recuperar o espaço como foi projetado, permitindo que a disposição circular original dos assentos, uma raridade em planetários, fosse reinstaurada. A pintura azul profunda foi substituída por tons que remetem aos acabamentos originais, e o piso recebeu um acabamento em "Cherokee Red", uma cor emblemática no vocabulário de Wright.

Desafios da Arquitetura Elemental

Trabalhar com a arquitetura de Frank Lloyd Wright, descrita por Baker como "elemental", apresenta desafios únicos. A filosofia de Wright de conceber a arquitetura como uma síntese de arte e estrutura significa que não há espaços "escondidos" (poche) para acomodar sistemas modernos. "Frank Lloyd Wright passou a vida concebendo a arquitetura como uma síntese de arte e estrutura", explicou Baker. "Na Florida Southern College, isso se manifesta em edifícios que são elementais – os pisos de concreto são os tetos dos cômodos abaixo, o teto de concreto é também o telhado acima." A integração de novas tecnologias de projeção e áudio, juntamente com sistemas de climatização e iluminação, exigiu engenhosidade para que fossem inseridos de forma discreta, sem comprometer a integridade estética e a visão espacial de Wright. A equipe precisou desenvolver métodos sensíveis para atender às necessidades contemporâneas sem violar a pureza do design original.

Legado e Inspiração Contínua

O Planetário é apenas uma peça no vasto quebra-cabeça do campus da Florida Southern College, que abriga treze edifícios de Wright construídos entre 1938 e 1958. Desde 2007, a universidade tem se empenhado em restaurar essas estruturas, incluindo a Waterdome, a maior fonte construída por Wright, e a Annie Pfeiffer Chapel. A restauração do Planetário, apoiada por subsídios de instituições como a J. Paul Getty Foundation, que financiou o Campus Heritage Plan original em 2007, reafirma o compromisso da faculdade com seu patrimônio. O campus, um marco histórico nacional, é a maior coleção de arquitetura de Frank Lloyd Wright em um único local no mundo. Agora, o Planetário está aberto ao público, convidando a novas gerações a contemplar as estrelas e a genialidade de um mestre.

A reabertura deste espaço singular não é apenas um triunfo para a arquitetura, mas um convite para refletir sobre a relação entre o passado e o futuro, entre a arte e a ciência. O que mais podemos aprender com a audácia de Wright em integrar forma e função, e como suas lições podem inspirar as construções de amanhã? O Planetário, agora restaurado, permanece como um farol, iluminando não apenas o cosmos, mas também o caminho para uma arquitetura mais consciente e integrada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen