Em um dos principais eventos do mercado financeiro, a Expert XP, o diagnóstico para o futuro fiscal do Brasil foi uníssono e pessimista. Para Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro e hoje chefe de macroeconomia da ASA, e Luiz Parreiras, gestor da Verde Asset, o país caminha para um impasse fiscal, independentemente do resultado das eleições de 2026.

A análise ocorre no momento em que entra em vigor uma nova sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Para os especialistas, no entanto, o maior risco não vem de fora. A leitura consensual é que a polarização política interna e o que chamam de “populismo de direita e de esquerda” criaram um cenário onde uma reforma fiscal estrutural se tornou politicamente inviável.

A guerra é política, não comercial

Jeferson Bittencourt classifica a nova tarifa americana como uma “guerra política”, não comercial. Em sua visão, o Brasil está relativamente protegido por ter uma economia mais fechada, mas o movimento agrava a percepção de risco em um contexto global já desafiador, com juros elevados e volatilidade nos preços do petróleo devido a tensões geopolíticas.

Essa pressão externa encontra um país fiscalmente mais frágil. A ausência de um debate sério sobre o controle de gastos, segundo Bittencourt, deixa o Brasil vulnerável. A metáfora usada foi direta: o país não conserta o telhado em dias de sol, espera a tempestade. E a tempestade pode ser uma crise fiscal aguda, forçada por um cenário internacional adverso.

O populismo como consenso

O ponto central do debate foi a paralisia causada pela política. Com a provável polarização entre o atual governo e a oposição nas eleições de 2026, Bittencourt afirma que nenhum lado ousará propor um ajuste fiscal, por medo de ser “penalizado pela campanha adversária”. A discussão, portanto, está fora da mesa.

Luiz Parreiras, da Verde, foi ainda mais cético. Para ele, mesmo uma vitória da direita não traria um ajuste profundo, pois o país vive sob “populismo de direita e de esquerda, são tons da mesma coisa”. O gestor projeta uma “ressaca” fiscal em 2027, após o que descreveu como uma “orgia de estímulos fiscais” da gestão atual. O recado é que, para o mercado, a disciplina fiscal não é prioridade para nenhuma força política relevante no país.

O diagnóstico de duas vozes influentes da Faria Lima sugere um caminho de menor resistência, onde a sobrevivência política se sobrepõe à sustentabilidade das contas públicas. A questão que fica no ar não é se uma crise fiscal virá, mas quando e com qual intensidade ela se manifestará.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times