O mercado de tecnologia brasileiro vive um paradoxo. Em 2025, os investimentos em tecnologia da informação (TI) cresceram robustos 18,5%, superando a média global de 14,1%. O dado, isolado, seria motivo para celebração. Contudo, a projeção para 2026 joga um balde de água fria no otimismo: a expectativa é de uma desaceleração para 5,3% de crescimento, enquanto o mundo deve avançar 9,7%.
A dissonância é o ponto central de um estudo conduzido pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) em parceria com a International Data Corporation (IDC). A análise sugere que o Brasil corre o risco de perder o compasso da inovação global justamente no momento em que a inteligência artificial generativa redefine as fronteiras de competitividade. O país acelerou, mas pode estar prestes a tirar o pé no momento mais crítico.
Da infraestrutura à inteligência
O cenário atual, no entanto, é fruto de uma longa maturação. Duas décadas atrás, mais de 67% dos investimentos em tecnologia no país eram destinados a hardware. Em 2025, essa fatia recuou para 47,9%, com software e serviços assumindo o protagonismo. Essa transição de comprar infraestrutura para comprar inteligência consolidou o Brasil como o 10º maior mercado de TI do mundo, movimentando US$ 67,8 bilhões. O risco, portanto, não é de irrelevância, mas de complacência.
Os próprios dados do estudo mostram uma sofisticação na demanda. Questionadas sobre o que direciona seus investimentos, as empresas brasileiras colocam a receita de serviços digitais como prioridade (35%), bem acima da média latino-americana. Não se trata mais apenas de cortar custos; a tecnologia é vista como um motor de novas receitas. A intenção estratégica parece alinhada à fronteira da inovação.
O gargalo é a cultura, não o caixa
Onde, então, reside o paradoxo? A resposta parece estar na capacidade de execução. O mesmo levantamento aponta o "mindset de inovação" como o principal desafio à digitalização para 34% dos entrevistados. Apenas 9% dos executivos reconhecem uma cultura "digital-first" como um acelerador fundamental. Há um descompasso evidente entre o que se quer fazer e como se organizar para fazer.
Essa lacuna se torna mais clara no campo da IA. Embora 57% das empresas já tenham objetivos claros para a tecnologia, os pilares que sustentam sua implementação em escala — como governança de dados, colaboração entre humano e máquina e segurança — permanecem com baixa aderência. A intenção de investir existe, mas a estrutura organizacional para extrair valor desse investimento ainda é frágil.
A desaceleração projetada para 2026 não é um destino, mas um alerta. Ela mede o que acontece quando a transformação digital é tratada como uma série de aquisições de tecnologia, e não como uma mudança profunda na forma de operar. A pergunta que o estudo da ABES/IDC deixa no ar não é quanto o Brasil vai investir, mas se conseguirá converter esse capital em uma vantagem competitiva real, enquanto a régua global continua a subir.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





