Em Algete, um município nos arredores de Madrid, a praça de touros é dividida em 1.500 quadrantes numerados. Um bilhete de 3 euros dá direito a um palpite: em qual deles um boi irá defecar? Para o vencedor, o prêmio é de 1.000 euros. O evento, batizado de “La Cagada del Manso”, precede as corridas e se espalha por outras cidades do interior espanhol.

O que parece um jogo folclórico e bizarro é, na essência, um mecanismo de financiamento. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, a iniciativa é organizada por associações locais, as chamadas “peñas taurinas”, como forma de arrecadar fundos para manter suas atividades ao longo do ano. É um modelo de negócio de baixo custo e alto engajamento, que transforma uma tradição controversa em uma loteria popular.

Uma gamificação da tradição

A simplicidade é a chave do sucesso. O aparato consiste em quadricular a arena e vender bilhetes. A lógica se repete em vilarejos como Illescas, Navalcarnero e Torrejoncillo del Rey, com pequenas variações nas regras e nos prêmios. O animal utilizado é um “manso”, um touro de lida que nasce sem a agressividade necessária para as corridas, tornando-o ideal para circular de forma inofensiva pela arena.

Este modelo de crowdfunding rural evidencia a busca por sustentabilidade econômica em um setor cultural sob pressão. Para as peñas, o evento é uma fonte de receita direta, garantindo recursos para a organização de festejos taurinos mais complexos e caros. A gamificação de um ato prosaico se converte em capital para a preservação de uma identidade local que se sente ameaçada.

Entre o folclore e a controvérsia

O fenômeno ocorre em um pano de fundo de ambiguidade. Dados do Ministério da Cultura espanhol apontam para uma leve alta no número de festejos taurinos após a pandemia, mas pesquisas de opinião mostram um interesse público estagnado há mais de uma década. A divisão é geracional: entre os jovens de 18 a 29 anos, quase 60% apoiam a retirada da proteção legal às touradas, um sentimento menos comum entre os mais velhos.

Nesse contexto, “La Cagada del Manso” funciona como um microcosmo da Espanha contemporânea. É a manifestação de uma cultura local que resiste, adaptando-se com criatividade para sobreviver financeiramente. Ao mesmo tempo, sua natureza quase paródica reflete a perda de centralidade e prestígio da tauromaquia na sociedade espanhola como um todo.

O evento garante a bilheteria e o financiamento de curto prazo. A questão que permanece em aberto é se essa resiliência anedótica é um sinal de vitalidade ou o sintoma de uma tradição que, para se manter relevante, precisa apelar ao lúdico e ao escatológico. A resposta diz menos sobre o futuro das touradas e mais sobre as formas que a cultura encontra para negociar seu próprio valor no presente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka