Depois de 11 pregões consecutivos de queda, uma sequência que subtraiu 6,55% de seu valor, o Ibovespa finalmente encontrou um piso, ainda que momentâneo. O principal índice da B3 encerrou a quarta-feira (19) com avanço de 0,90%, aos 167.830 pontos. O movimento foi sustentado por uma melhora pontual no humor internacional e pela recuperação de ações de grande peso no índice, como Vale, Petrobras e os grandes bancos.

O alívio, contudo, vem com um asterisco. A alta interrompe a sangria, mas está longe de configurar uma reversão de tendência. Durante o pregão, o índice chegou a superar os 170 mil pontos, mas perdeu fôlego no fechamento, um sinal clássico de que a força compradora ainda hesita. A questão que domina as mesas de operação é se o movimento foi um mero repique técnico — uma reação quase mecânica após uma venda exagerada — ou o início de uma recuperação consistente. A análise dos gráficos sugere cautela.

A anatomia de um repique

Do ponto de vista da análise técnica, a reação do Ibovespa era esperada. Após 11 dias de perdas, indicadores como o Índice de Força Relativa (IFR) se aproximavam de níveis de “ sobrevenda”, sinalizando que a pressão vendedora poderia estar esticada. Nesse contexto, uma recuperação pontual funciona como um ajuste natural do mercado, sem necessariamente indicar uma mudança fundamental no sentimento dos investidores. É o mercado respirando após um mergulho profundo.

A fragilidade da estrutura gráfica, porém, permanece. Segundo análise da InfoMoney, o Ibovespa continua negociando abaixo de suas principais médias móveis (de 9, 21 e 200 períodos), uma configuração que caracteriza uma tendência de baixa no curto prazo. A perda de ímpeto ao longo da própria sessão de quarta-feira reforça essa leitura: houve apetite para comprar a preços mais baixos, mas não convicção suficiente para sustentar uma alta mais robusta e romper as primeiras barreiras.

As barreiras para uma virada real

Para que o otimismo ganhe tração, o índice precisa superar obstáculos claros. A primeira zona de resistência relevante está na faixa entre 168.800 e 173.930 pontos. Um rompimento consistente dessa região, idealmente acompanhado por um aumento no volume de negócios, seria o primeiro sinal de que os compradores estão de fato retomando o controle. Sem isso, qualquer avanço corre o risco de ser apenas uma oportunidade de venda para os mais pessimistas.

Se essa barreira for vencida, o próximo teste de fogo estaria nos 180.680 pontos. Por outro lado, o risco de uma nova derrocada não foi eliminado. A principal zona de suporte imediato fica entre 164.835 e 161.745 pontos. A perda desse patamar anularia o alívio recente e poderia abrir caminho para quedas mais acentuadas. O cenário técnico, portanto, espelha o dilema fundamental: o alívio externo, vindo de uma operação do Tesouro americano, pode não ser suficiente para anular as persistentes incertezas fiscais e políticas do cenário doméstico.

O Ibovespa ganhou um dia de fôlego, mas a maratona da recuperação mal começou. A interrupção da sequência negativa tem um peso psicológico importante, mas a estrutura técnica e fundamental ainda pende para a cautela. A tarefa dos compradores, agora, é provar que a reação de um dia pode se transformar em uma tendência de semanas. Por enquanto, o movimento se assemelha mais a uma trégua do que a um armistício.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney