Agentes da Receita Federal, policiais militares e integrantes do Ministério Público de São Paulo deflagraram, nesta quinta-feira (28), a segunda etapa da Operação Carbono Oculto, batizada de Fluxo Oculto. A ação cumpre 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados, focando na infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas do setor de combustíveis e na utilização de fintechs como braços financeiros para a lavagem de ativos.
Segundo informações das autoridades, a organização criminosa consolidou um sistema de compensação financeira interna que conecta distribuidoras, postos de combustíveis e fundos de investimento. A investigação aponta que o esquema, que sobreviveu à primeira investida policial ocorrida em agosto de 2025, utiliza uma rede de seis fintechs que funcionam efetivamente como bancos paralelos para o fluxo de capitais ilícitos.
A mecânica da lavagem via fintechs
O uso de instituições de pagamento como veículos de ocultação de recursos representa um desafio crescente para os órgãos de controle. De acordo com a Receita Federal, as seis fintechs identificadas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. O mecanismo de lavagem baseia-se na criação de camadas de opacidade financeira, com depósitos vultosos em espécie e a interconexão de contas em diversas instituições de pagamento, o que dificulta a rastreabilidade pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
Um dado que ilustra a dimensão do esquema é a movimentação de R$ 1 bilhão em espécie em uma única dessas instituições entre 2022 e 2024. A estrutura montada permite que o capital proveniente de atividades ilícitas seja reinjetado na economia formal sob a aparência de transações comerciais legítimas entre empresas do setor petroquímico e fundos de investimento, criando um ciclo de lavagem que contorna as barreiras tradicionais do sistema bancário regulado.
O elo com a adulteração de combustíveis
Além da engenharia financeira, a operação mira a chamada "máfia da nafta". O esquema envolve a importação ilegal de solventes petroquímicos que são posteriormente comercializados como gasolina, gerando lucros extraordinários para a facção. A sonegação fiscal decorrente dessa adulteração é estimada em R$ 200 milhões apenas nos últimos dois anos, evidenciando como o crime organizado se apropria de setores essenciais da infraestrutura econômica para financiar suas operações.
A integração entre a fraude tributária e a lavagem de dinheiro via fintechs forma um ecossistema complexo. Enquanto a venda do produto adulterado garante o fluxo de caixa imediato, as instituições de pagamento fornecem a infraestrutura necessária para a pulverização e movimentação desses valores, tornando a repressão policial um desafio que exige a desarticulação simultânea de ambos os pilares.
Implicações para o ecossistema financeiro
O caso coloca em xeque a governança de instituições de pagamento e fintechs que operam com baixo nível de fricção para entrada de clientes. A facilidade com que organizações criminosas abrem contas e movimentam bilhões levanta questões sobre a eficácia dos procedimentos de 'Know Your Customer' (KYC) e 'Anti-Money Laundering' (AML) adotados por essas empresas. Reguladores podem ser pressionados a endurecer as regras de conformidade para o setor de pagamentos, que até então gozava de maior flexibilidade operacional.
Para o mercado, o episódio reforça a necessidade de auditorias mais rigorosas em empresas que operam na intersecção entre o setor real e o financeiro. A infiltração do PCC em companhias de combustíveis, um setor historicamente visado pela sonegação, sugere uma estratégia de expansão para ativos que possuem alta capilaridade e capacidade de movimentação de dinheiro vivo, um elemento central para a manutenção das operações criminosas.
Desafios para a fiscalização
O que permanece incerto é a extensão da rede de colaboração entre as fintechs e o crime organizado. A investigação ainda deve determinar se houve negligência deliberada ou conivência por parte dos gestores dessas instituições. O desmantelamento dessa estrutura exigirá não apenas a apreensão de bens, mas uma análise profunda sobre como essas empresas foram utilizadas para contornar os mecanismos de vigilância do Banco Central.
O mercado aguarda agora os desdobramentos da operação, especialmente no que tange à responsabilização dos envolvidos e às possíveis sanções administrativas contra as instituições de pagamento citadas. O sucesso da "Fluxo Oculto" será medido pela capacidade das autoridades de asfixiar o braço financeiro da organização, impedindo que novas fintechs sejam criadas para substituir as que foram alvos da ação.
O desenrolar desta investigação indica que a sofisticação das operações de lavagem de dinheiro está acompanhando a digitalização do setor financeiro, exigindo uma resposta estatal igualmente ágil e tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





