A diretora-geral da Ouigo Espanha, Amandine Thomas-Commin, afastou preocupações sobre a segurança da rede ferroviária espanhola em sua recente comparecência na comissão de investigação do Senado. Segundo Thomas-Commin, as queixas da operadora de alta velocidade não se originam de falhas de segurança, mas sim de uma percepção de "falta de qualidade no serviço", notadamente devido a atrasos que impactam a experiência do passageiro. As limitações de velocidade, impostas após um acidente fatal em Adamuz em janeiro, foram apontadas como um dos principais fatores para o aumento no tempo de viagem, que pode chegar a 25 minutos na rota Madrid-Barcelona.

Falhas de serviço, não de segurança

Durante sua testimony, Thomas-Commin reiterou que os maquinistas da Ouigo não detectaram anomalias na área do acidente antes de sua ocorrência. Embora a companhia tenha identificado, dias depois, algumas marcas em um de seus trens, a investigação subsequente descartou qualquer relação causal com o incidente. A executiva expressou confiança na gestão da rede pela Adif, a administradora pública de infraestrutura ferroviária espanhola, e destacou avanços nas solicitações da Ouigo para melhorar o conforto e a manutenção dos trens. A instalação de arcos externos para controle de pantógrafos e a revisão das limitações de velocidade são exemplos de medidas em andamento.

Contexto de liberalização e tensões

A aparição de Thomas-Commin ocorre em um momento crucial para o setor ferroviário espanhol, marcado pela abertura à concorrência. Desde a chegada da Ouigo em maio de 2021, a empresa tem tido alguns atritos com a administração, especialmente em relação a questões de acesso a infraestruturas e a interpretação de contratos. A diretora-geral adotou um tom conciliador, evitando confrontos diretos com o ministro do ramo, Óscar Puente, e declarando que não se envolvia em questões políticas. A Ouigo, assim como a Iryo, tem enfrentado alegações de tratamento discriminatório em favor da Renfe, a operadora estatal histórica. A Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência (CNMC) já abriu um processo contra a Adif por um sistema de bonificações que, segundo o regulador, favorecia a Renfe ao reduzir incentivos em linhas de alta velocidade com concorrência e triplicar descontos em trajetos de longa distância operados exclusivamente pela estatal. A Adif também tentou, sem sucesso, aumentar os custos de acesso para a Renfe em linhas exclusivas, uma medida derrubada pela CNMC.

Implicações para o futuro da mobilidade

As declarações da Ouigo sublinham os desafios inerentes à liberalização de infraestruturas críticas como a rede ferroviária. Embora a segurança seja um pilar inegociável, a eficiência operacional e a qualidade do serviço tornam-se diferenciais competitivos e pontos de atrito entre operadores privados e a administração pública. A gestão de infraestruturas, a definição de tarifas e a garantia de condições equitativas para todos os players são cruciais para o sucesso do modelo de concorrência. A atuação da CNMC em casos como o das bonificações da Adif demonstra a importância do papel regulador na manutenção de um mercado justo e funcional.

Perguntas em aberto para o setor

Apesar dos esforços para otimizar a rede e a experiência do passageiro, persistem questões sobre a velocidade de implementação das melhorias e a efetividade das medidas para mitigar os atrasos. A capacidade da Adif de equilibrar as demandas de múltiplos operadores, ao mesmo tempo em que gerencia uma infraestrutura complexa e envelhecida, continuará a ser um fator determinante. Observar como a Ouigo e outros operadores privados navegarão essas tensões e como a administração pública responderá às demandas por maior eficiência e qualidade será fundamental para o futuro da mobilidade ferroviária na Espanha e em outras economias europeias que buscam modelos semelhantes.

A busca por um equilíbrio entre segurança, eficiência e qualidade de serviço na rede ferroviária espanhola segue como um desafio constante, com a Ouigo posicionando-se como uma voz crítica, mas colaborativa, na evolução do setor. A gestão de infraestrutura e as dinâmicas competitivas moldarão a experiência do passageiro nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España