Investidores em busca de proteção contra a ansiedade fiscal e monetária não estão mais escolhendo entre o velho e o novo. Estão comprando ambos. Nos últimos cinco pregões, fundos negociados em bolsa (ETFs) que replicam o desempenho do ouro e do Bitcoin atraíram um volume recorde de US$ 7 bilhões, segundo dados da Bloomberg. O movimento colocou os principais veículos de investimento para os dois ativos entre os gigantes do mercado acionário americano em termos de captação.
O SPDR Gold Shares (GLD), da State Street, recebeu quase US$ 3,4 bilhões, enquanto o iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, captou US$ 1,5 bilhão. A tese por trás do movimento é o retorno do chamado “trade da escassez”: a aposta em ativos cuja oferta não pode ser inflada por decisões de governos ou bancos centrais. A corrida simultânea, depois de anos em que o apelo dos dois ativos parecia divergir, sugere uma validação importante do Bitcoin como um ativo macroeconômico legítimo.
O retorno do 'debasement trade'
O catalisador para a onda de aportes foi o anúncio do Tesouro americano de que planeja ampliar a recompra de seus próprios títulos de longo prazo. A medida, que na prática injeta liquidez no sistema, pressionou o dólar e os juros para baixo, dando tração imediata a ativos de oferta limitada. O fenômeno, conhecido no jargão financeiro como “debasement trade”, parte da premissa de que o aumento das pressões fiscais e a flexibilização monetária corroem o valor da moeda fiduciária, tornando portos seguros mais atraentes.
Para analistas como Gautam Chhugani, do Bernstein, o cenário estrutural é claro: “A era de 40 anos de queda dos juros chegou ao fim, expondo os governos a custos crescentes de serviço da dívida”. Nesse contexto, ativos como o Bitcoin, com sua oferta matematicamente finita em 21 milhões de unidades, ganham relevância como uma proteção contra a diluição monetária, uma função historicamente desempenhada pelo ouro.
A validação do Bitcoin como ativo macro
Por anos, a narrativa do Bitcoin como “ouro digital” foi mais uma tese de seus entusiastas do que uma realidade de mercado. O fluxo de capital atual, no entanto, oferece a evidência mais forte até agora de que grandes alocadores estão tratando o criptoativo como um componente legítimo em uma estratégia de diversificação macro. A validação vem não apenas dos fluxos, mas de vozes do establishment financeiro, como o bilionário Ray Dalio, que recentemente recomendou alocações em ouro e “um pouco” de Bitcoin como proteção contra uma potencial crise da dívida soberana.
Para Eric Balchunas, analista de ETFs da Bloomberg Intelligence, o movimento representa um retorno à tese fundamental do ativo. “É para isso que o Bitcoin nasceu”, afirmou, referindo-se à sua natureza como um ativo resistente à desvalorização monetária. A convergência dos fluxos para ouro e Bitcoin sugere que, na mente dos investidores, a função de ambos como reserva de valor em tempos de incerteza fiscal está se tornando cada vez mais similar.
Apesar do ímpeto, a tese não é um consenso. Hardika Singh, estrategista da Fundstrat, avalia que o “debasement trade” pode estar perdendo força e que o mercado de ações poderia oferecer uma proteção mais confiável. Ainda assim, a aceleração da demanda por ETFs de ouro e Bitcoin, como aponta Noelle Acheson, autora da newsletter “Crypto Is Macro Now”, sugere que uma correção de portfólios subalocados em ativos de escassez pode estar apenas começando.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





