Um passeio tranquilo de pai e filha pelas montanhas da Noruega transformou-se em uma descoberta arqueológica significativa. Tormod Fjeld e sua filha Ada, durante uma parada na colina de Kolsåstoppen, em Bærum, se depararam com gravuras rupestres que estavam ocultas por cerca de três milênios. As marcações, encontradas sobre arenito, incluem representações de barcos, uma grande pegada e uma mão com cinco dedos, oferecendo um vislumbre das comunidades que habitaram a região durante a Idade do Bronze nórdica.
Fjeld, um entusiasta da arqueologia com anos de experiência na busca por arte rupestre, explica que sua metodologia envolve a interpretação do terreno para identificar locais historicamente escolhidos para tais representações. Naquele dia, enquanto se dirigiam a outro ponto, a curiosidade os levou a examinar as rocas de Kolsåstoppen. O que à primeira vista poderia passar despercebido entre as irregularidades da pedra, logo se revelou como figuras gravadas. As primeiras a serem identificadas foram as embarcações, algumas em posição normal e outras invertidas, com detalhes que possivelmente retratam tripulantes.
O Encontro com o Passado
O achado tornou-se ainda mais notável com a descoberta de uma grande marca em formato de pé e uma mão com dedos bem separados, acompanhando os motivos navais. Essa combinação de elementos — barcos, pegadas e mãos — confere ao conjunto de Bærum um valor especial para o estudo de como as populações escandinavas de três milênios atrás representavam seu ambiente e sua própria existência. A particularidade do suporte, a arenisca, também chamou a atenção de Fjeld. Diferente do granito mais comum em outras regiões, como Østfold, a arenisca permite uma visualização mais detalhada da técnica empregada: a criação de figuras através de sucessivos impactos na pedra, visíveis como pequenas ranhuras na superfície. Essa clareza preservada na rocha facilita a análise da definição de cada linha, especialmente nas representações de barcos e figuras humanas.
A Técnica e o Significado
A presença conjunta de barcos, a pegada e a mão em um mesmo local expande o repertório de descobertas em Bærum e levanta novas questões sobre o uso deste sítio durante a Idade do Bronze. A arenisca, por sua natureza mais maleável em comparação ao granito, permitiu que os artistas da época esculpissem detalhes finos, preservando a técnica de impacto em pequenas depressões. Essa preservação é crucial para arqueólogos e pesquisadores, pois permite uma análise mais precisa das ferramentas e métodos utilizados há milênios. A interpretação dessas gravuras é um campo complexo, mas a presença de elementos tão distintos sugere uma rica tapeçaria de significados, possivelmente ligados a rituais, navegação, cosmologia ou mesmo à demarcação territorial.
O Papel da Arqueologia Amadora
Este não é um achado isolado para Tormod Fjeld. Desde 2023, ele tem se dedicado a rastrear o entorno de Drøbak, no município de Frogn, onde já localizou cerca de 70 novos sítios com gravuras rupestres, expandindo significativamente o número conhecido anteriormente. Sua estratégia de analisar a disposição da paisagem e decifrar os "códigos" de escolha de locais tem se mostrado eficaz. A arqueóloga Reidun Marie Aasheim, do condado de Akershus, ressalta a importância dessas contribuições amadoras. Os arqueólogos oficiais, com recursos limitados e focados em áreas de desenvolvimento de infraestrutura, não conseguem realizar buscas sistemáticas com o mesmo alcance. A descoberta em Kolsåstoppen reforça a crença de que muitos outros gravados permanecem sem catalogar, escondidos sob o cenário norueguês.
Perguntas em Aberto
Ainda que o achado em Bærum forneça novas peças para o quebra-cabeça da Idade do Bronze nórdica, ele também abre novas frentes de investigação. Acredita-se que áreas como Asker e Bærum escondam inúmeros outros gravados. A análise mais aprofundada das figuras, sua relação com outros sítios arqueológicos conhecidos e a interpretação de seus possíveis significados culturais são os próximos passos. A colaboração entre arqueólogos amadores e profissionais, como evidenciado neste caso, parece ser um caminho promissor para desvendar mais segredos do passado. A preservação desses sítios e a continuidade das pesquisas são fundamentais para a compreensão da história humana na região.
A descoberta de Tormod Fjeld e Ada Fjeld não é apenas um achado arqueológico, mas um lembrete da profundidade da história humana que jaz sob nossos pés, esperando para ser revelada por olhares atentos e curiosos. A jornada para entender completamente o que essas gravuras nos dizem está apenas começando.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





