Uma proposta política em Palma de Mallorca, na Espanha, acende um debate sobre os limites do mercado imobiliário em centros urbanos. O partido MÉS per Palma sugeriu a criação de um teto para o valor do aluguel de pontos comerciais, numa tentativa de conter o avanço de grandes franquias e negócios voltados ao turismo em detrimento do comércio de proximidade.

A medida, apresentada pelo candidato à prefeitura David Pujol, mira o que a legenda descreve como as áreas mais "turistizadas" da cidade — o centro histórico, Eixample e Santa Catalina. A tese é que a rentabilidade de negócios orientados a turistas eleva os aluguéis a um patamar insustentável para estabelecimentos tradicionais, como mercearias e armarinhos, forçando seu fechamento e descaracterizando a vida dos bairros para os residentes locais.

A anatomia da gentrificação comercial

O fenômeno descrito em Palma não é uma exclusividade espanhola. Trata-se de uma dinâmica clássica de gentrificação comercial, onde a valorização imobiliária, impulsionada por um vetor econômico específico — neste caso, o turismo de massa —, expulsa as operações de menor margem que atendem à comunidade local. A lógica é puramente de mercado: um negócio que vende souvenirs ou pertence a uma rede internacional consegue absorver custos de locação muito superiores aos de uma sapataria de bairro.

A proposta do MÉS per Palma é uma intervenção direta nessa lógica. Ao sugerir o controle de preços em "zonas de maior pressão", o partido busca criar uma reserva de mercado artificial para proteger o que considera parte do tecido social e cultural da cidade. É uma colisão direta entre o direito de propriedade e o interesse público na manutenção da diversidade econômica e da identidade local.

Um espelho para cidades brasileiras

Embora distante, o debate em Palma de Mallorca ressoa com força em metrópoles brasileiras. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador enfrentam dilemas semelhantes em bairros de alta valorização ou em centros históricos revitalizados. Ruas que antes abrigavam um comércio diversificado hoje são dominadas por monotemas — seja o circuito de bares da Vila Madalena ou as lojas de grife nos Jardins.

A iniciativa espanhola, ainda que em estágio embrionário e de difícil implementação legal e prática, joga luz sobre uma questão fundamental para o urbanismo contemporâneo: qual o papel do poder público na curadoria da paisagem comercial de uma cidade? Deixar a seleção exclusivamente por conta das forças de mercado pode levar a uma homogeneização que, a longo prazo, empobrece a experiência urbana para os próprios residentes. A proposta de Palma, bem-sucedida ou não, serve como um importante estudo de caso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España